PUBLICIDADE

Vaticano Pede Perdão de Joelhos no Peru por Abusos do Sodalício de Vida Cristã e Roubo de Terras

G1

Em um gesto de profunda contrição e simbolismo, representantes da Igreja Católica se ajoelharam no Peru para pedir perdão às comunidades camponesas herdeiras do povo indígena Tallán. O ato, realizado no fim de maio na cidade de Catacaos, no noroeste do país, marca um reconhecimento tardio das denúncias de roubo de terras e perseguição, perpetradas por empresas ligadas ao Sodalício de Vida Cristã (SVC), um agrupamento religioso ultraconservador. A iniciativa surge em um momento em que a própria Santa Sé busca reparar os danos causados por décadas de abusos e corrupção.

O Pedido Institucional de Perdão e a Admissão de Falhas

Monsenhor Jordi Bertomeu, enviado especial do Vaticano para a fase de dissolução do Sodalício no Peru, liderou a homilia de desculpas, proferida a pedido da comunidade camponesa San Juan Bautista de Catacaos. Em suas palavras, carregadas de emoção, Bertomeu expressou um profundo pesar pela demora da Igreja em agir. “Chegamos tarde, deveríamos ter chegado há 20 anos, e sentimos muito por isso”, afirmou. Ele descreveu o Sodalício como uma “estrutura abusiva”, cuja supressão por ordem do Papa Francisco, após investigações de abusos sexuais e corrupção, visa garantir a justiça para as vítimas e que tais erros não se repitam.

Em entrevista à BBC Mundo, o monsenhor confessou ter sentido um peso histórico sobre os ombros, testemunhando o ato de joelhos das autoridades eclesiais diante de um povo que, por tanto tempo, careceu de apoio institucional. A admissão de vergonha pelas ações e omissões de membros da Igreja reforça o compromisso do Vaticano em aprender com o passado, buscando a reconciliação e a reparação.

A Voz das Vítimas: Anos de Luta por Justiça no Campo

Para os membros da comunidade San Juan Bautista de Catacaos, o gesto da Igreja representou um ato de justiça há muito aguardado. Percy Maza, um dos camponeses que denuncia ter sido perseguido e criminalizado por defender sua terra, classificou os enviados do Vaticano como “anjos enviados por Deus para ouvir as vozes dos nossos camponeses”. Ele articulou o clamor de anos por ajuda e justiça que finalmente parecia ser atendido.

Paula Sandoval, de 58 anos e mãe de Percy Maza, expressou a dor e a vulnerabilidade sentida por sua comunidade: “Fizeram o que quiseram conosco porque somos pobres, somos do campo, não conhecemos as leis”. A emoção com a chegada dos padres para pedir perdão, vindo de tão longe, foi um momento catártico, percebido como a chegada da “justiça divina” após uma longa e árdua batalha.

O Complexo Esquema de Apropriação Fraudulenta de Terras

A origem das denúncias de roubo de terras remonta a 1998, segundo camponeses, advogados e jornalistas que investigaram o caso. Os direitos territoriais da comunidade San Juan Bautista de Catacaos, que se dedica principalmente à criação de gado, apicultura e agricultura, são ancestrais, derivando de reconhecimentos comunitários do Vice-Reino do Peru e até mesmo do período pré-colonial. Contudo, a ausência de títulos de propriedade individuais tornou essas terras vulneráveis.

Em 18 de dezembro de 1998, uma transferência supostamente fraudulenta de quase 10 mil hectares foi registrada em nome de 100 camponeses, sob a alegação de uma assembleia comunitária que, segundo os moradores, nunca ocorreu. Análises dos registros revelaram que muitas das pessoas que supostamente participaram da assembleia estavam falecidas ou negaram ter assinado a ata. Posteriormente, esses terrenos foram transferidos para a empresa Pampa Loma Vega e, sucessivamente, para outras entidades, incluindo a Asociación Civil San Juan Bautista, que comprovadamente possuía vínculos com o Sodalício de Vida Cristã.

Sodalício de Vida Cristã: Abusos, Corrupção e a Dissolução Pontifícia

O Sodalício de Vida Cristã, fundado em 1971 por Fernando Figari, foi uma organização religiosa de perfil ultraconservador que, durante anos, operou no Peru. Sua trajetória foi marcada por graves denúncias de abusos sexuais e corrupção, que culminaram na sua supressão por ordem do Papa Francisco. A decisão pontifícia, resultado de uma investigação aprofundada, visou desmantelar uma estrutura que se comprovou prejudicial e abusiva.

A jornalista Paola Ugaz, que investigou por anos as conexões econômicas da organização religiosa no Peru, destacou à BBC Mundo que, na época das transferências de terras, o vínculo entre o poder econômico e o religioso do Sodalício em Piura (região onde Catacaos está localizada) não era publicamente conhecido. Essa opacidade permitiu que as ações do grupo se desenvolvessem sem o devido escrutínio, exacerbando a vulnerabilidade das comunidades locais. A dissolução do Sodalício e o pedido de perdão subsequente do Vaticano representam um marco na busca por justiça e transparência dentro da Igreja.

Rumo à Reconciliação e à Prevenção de Abusos Futuros

O ato de contrição e o pedido de perdão do Vaticano em Catacaos transcendem a mera formalidade; eles representam um passo fundamental na longa jornada de reconciliação e justiça para as comunidades peruanas historicamente oprimidas. A admissão pública da culpa e a condenação das ações do Sodalício de Vida Cristã enviam uma mensagem clara sobre a importância da accountability e da proteção dos mais vulneráveis. É um reconhecimento de que a fé não pode ser usada como véu para a exploração e o abuso, e que a Igreja deve estar ao lado dos que clamam por justiça. O compromisso de aprender com os erros do passado é essencial para construir um futuro onde tais tragédias não se repitam, fortalecendo a confiança entre a instituição e seus fiéis.

Fonte: https://g1.globo.com

Leia mais

PUBLICIDADE