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Suíça Abre Arquivos Secretos de Josef Mengele, o ‘Anjo da Morte’ Nazista

G1

O Serviço Federal de Inteligência da Suíça anunciou que tornará públicos os arquivos confidenciais sobre Josef Mengele, o infame criminoso de guerra nazista conhecido como o 'Anjo da Morte'. Esta decisão representa um marco significativo na busca por transparência e no esclarecimento de um dos capítulos mais sombrios da história, especialmente quanto ao paradeiro e possíveis conexões europeias de Mengele após a Segunda Guerra Mundial. Sua fuga da Europa e eventual morte no Brasil em 1979 há muito alimentam especulações, e os arquivos suíços prometem lançar nova luz sobre esse período.

O Legado Brutal de Josef Mengele em Auschwitz

Josef Mengele, que serviu como médico na Waffen-SS, a organização paramilitar nazista, desempenhou um papel horrendo no campo de extermínio de Auschwitz, na Polônia ocupada. Lá, ele era o responsável pela seleção de prisioneiros que seriam imediatamente enviados às câmaras de gás, um destino imposto a cerca de 1,1 milhão de pessoas, incluindo aproximadamente um milhão de judeus. Sua crueldade não se limitava à triagem para a morte; ele também escolhia prisioneiros, com foco especial em crianças e gêmeos, para a realização de experimentos médicos sádicos e desumanos antes de, invariavelmente, os destinar à aniquilação. Estima-se que ele próprio tenha enviado cerca de 400.000 pessoas, a maioria judias, diretamente para a morte.

A Fuga para a América do Sul e os Primeiros Rastros Suíços

Após o fim da guerra, Mengele, como muitos outros oficiais nazistas de alto escalão, buscou obliterar seu passado, alterando sua identidade e nome. Ele conseguiu obter documentos de viagem da Cruz Vermelha, utilizando uma identidade falsa, através do consulado suíço em Gênova, no norte da Itália. Esses documentos foram cruciais para sua fuga para a América do Sul em 1949. Embora a intenção da Cruz Vermelha fosse auxiliar milhares de deslocados e apátridas pela guerra, a organização posteriormente se desculpou pelo fato de nazistas em fuga terem conseguido se beneficiar do sistema. A Suíça figurou novamente em sua história em 1956, quando Mengele, já foragido e com mandado internacional de prisão em vigor, foi documentado esquiando nos Alpes suíços com seu filho Rolf, uma informação que veio a público na década de 1980.

Novas Pistas e o Apartamento Secreto em Zurique

Apesar da crença oficial de que Mengele passou o resto de sua vida na América do Sul após 1956, a historiadora suíça Regula Bochsler sempre questionou a possibilidade de seu retorno à Europa depois que um mandado de prisão internacional foi emitido em 1959. Suas pesquisas sobre o papel da Suíça como país de trânsito para nazistas em fuga revelaram detalhes intrigantes. Em junho de 1961, a inteligência austríaca alertou as autoridades suíças de que Mengele poderia estar em seu território, viajando sob um nome falso. Paralelamente, a esposa de Mengele alugou um apartamento em Zurique e solicitou residência permanente. Este apartamento, localizado em um subúrbio modesto, mas estrategicamente perto do aeroporto internacional, levantou suspeitas, dado o poder aquisitivo da família.

Arquivos da polícia de Zurique consultados por Bochsler confirmaram que o apartamento da Sra. Mengele foi colocado sob vigilância em 1961. Relatos indicam que a polícia chegou a registrar a esposa dirigindo seu Volkswagen acompanhada por um homem não identificado, alimentando a hipótese de que seria o próprio Josef Mengele. Bochsler aponta para essas evidências, questionando as razões por trás do aluguel do apartamento e sugerindo que Mengele estaria planejando uma viagem à Europa por volta de 1959.

A Luta Pela Transparência e a Vitóriado Acesso

O acesso aos arquivos federais suíços relativos a Mengele foi negado repetidamente a historiadores por décadas. Em 2019, Regula Bochsler teve seu pedido rejeitado sob alegações de segurança nacional e proteção da família estendida, com os arquivos selados até 2071. Outro historiador, Gérard Wettstein, enfrentou a mesma recusa em 2025. Wettstein, descrevendo a situação como “ridícula” e um alimento para teorias da conspiração, decidiu contestar a decisão judicialmente, iniciando uma bem-sucedida campanha de financiamento coletivo que arrecadou 18 mil francos suíços em poucos dias. Foi diante dessa pressão legal e pública que o Serviço Federal de Inteligência da Suíça, finalmente, reverteu sua posição. Embora a transparência total ainda possa levar tempo, o órgão declarou que o solicitante terá acesso ao arquivo, sujeito a condições e requisitos a serem definidos.

Expectativas Sobre o Conteúdo dos Arquivos Revelados

Apesar da vitória pelo acesso, há divergências sobre o que os arquivos realmente trarão à tona. Sacha Zala, presidente da Sociedade Suíça de História, expressou ter “certeza absoluta de que não há nada relevante sobre o próprio Mengele” dentro desses documentos. No entanto, ele sugere que os arquivos podem conter referências importantes a serviços de inteligência estrangeiros ou informantes, o que ainda assim forneceria valiosos insights sobre as redes e a complexidade das operações pós-guerra. A divulgação dos documentos, independentemente de seu conteúdo direto sobre Mengele, representa um passo fundamental para a historiografia e para dissipar as sombras de mistério que por tanto tempo envolveram o papel da Suíça nesse período.

A abertura desses arquivos é um testemunho da persistência de historiadores e da crescente demanda por responsabilidade histórica. Embora a extensão das revelações diretas sobre as atividades de Josef Mengele na Suíça permaneça incerta, a simples decisão de tornar esses documentos públicos é um reconhecimento da importância da transparência em lidar com o legado de crimes contra a humanidade. Este ato contribui para a construção de uma compreensão mais completa e matizada de um passado complexo, garantindo que a verdade continue a ser buscada, mesmo décadas após os eventos.

Fonte: https://g1.globo.com

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