A política dos Estados Unidos de classificar organizações criminosas latino-americanas como terroristas tem gerado repercussões complexas e variadas na região. Recentemente, facções brasileiras como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) foram oficialmente incluídas nesta lista de designação, alinhando-as a grupos já visados, como os poderosos cartéis mexicanos de Sinaloa e Jalisco Nova Geração, o venezuelano Trem de Arágua e o colombiano Clã do Golfo. Esta medida, parte de uma campanha mais ampla do governo estadunidense contra o que denomina narcoterrorismo, visa aplicar sanções severas e exercer pressão diplomática e operacional.
A Estratégia Antiterrorismo dos EUA e Suas Ferramentas
A designação de um grupo como organização terrorista pelos Estados Unidos confere-lhe um status jurídico que acarreta sérias consequências. Tais organizações são imediatamente incluídas na lista do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (Ofac) do Departamento do Tesouro americano, resultando no bloqueio de seus bens em território estadunidense e na aplicação de rigorosas sanções econômicas e comerciais. Além disso, a medida impõe um monitoramento financeiro muito mais estrito sobre as transações desses grupos nos EUA e com empresas que possuam laços em solo americano. Qualquer entidade ou indivíduo que forneça apoio material — seja envio de dinheiro, prestação de serviços, consultoria, transporte ou qualquer outra ajuda econômica, direta ou indireta — a membros ou instituições ligadas a essas organizações, pode enfrentar severas penalidades nos Estados Unidos. A iniciativa partiu de uma ordem executiva assinada pelo então presidente Donald Trump, em 2025, solicitando ao Departamento de Estado a designação dos principais cartéis e outras organizações criminosas latino-americanas como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs).
Impacto na América Latina: México e Venezuela em Destaque
As consequências dessa política se manifestam de diversas formas nos países afetados, variando desde o aumento da pressão diplomática até a intensificação de operações de inteligência.
México: Pressão Diplomática e Ações Controversas
No México, onde diversos cartéis como Sinaloa, Jalisco Nova Geração, do Nordeste, do Golfo, Unidos e Nova Família Michoacana receberam a designação em fevereiro de 2025, a pressão diplomática sobre o governo da presidente Claudia Sheinbaum se intensificou. Este cenário incluiu o indiciamento de dez oficiais do governo do Estado de Sinaloa, incluindo o próprio governador, Rubén Rocha Moya, por supostos vínculos com o poderoso Cartel de Sinaloa. Adicionalmente, o governo mexicano denunciou uma suposta operação não autorizada da CIA em seu território, após a identificação de dois oficiais americanos, que estariam investigando laboratórios de drogas, mortos em um acidente de carro no norte do país. Até o momento, os cartéis mexicanos foram os mais visados pelas sanções americanas, com o sistema da Ofac identificando pelo menos 40 indivíduos ligados a essas organizações.
Venezuela: O Cenário de Tensão Elevada
Na Venezuela, a pressão sobre o crime organizado, que inclui o Trem de Arágua e o Cartel dos Sóis entre os designados terroristas, atingiu um ponto crítico, culminando em janeiro daquele ano com uma invasão armada que resultou na captura do então presidente Nicolás Maduro, conforme relatado. Embora a designação de organizações como terroristas não seja um requisito legal para a autorização de operações de inteligência dos EUA no exterior, especialistas sugerem que as recentes ações americanas no México e na Venezuela fazem parte da campanha mais ampla contra o narcoterrorismo.
Efeitos Variáveis e a Visão dos Especialistas
Apesar do vigor das designações e das sanções, especialistas consultados pela BBC News Brasil indicam que, com exceção do caso venezuelano, a classificação como terrorista não resultou, até o momento, em um enfraquecimento significativo das organizações criminosas ou em uma diminuição da criminalidade na maioria dos países. No entanto, a medida teve outros impactos notáveis.
Cecilia Farfán-Méndez, chefe do Observatório Norte-Americano da Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional (GI-TOC), destaca que a designação "muda definitivamente o tom [dos EUA] em relação a esses grupos e como qualificam a ameaça que eles representam". Embora a ação americana não tenha provocado grandes mudanças no comportamento direto das organizações criminosas atingidas, ela teve um impacto significativo nos negócios do setor privado dos países envolvidos, além de significar penas mais duras para criminosos capturados e extraditados para os Estados Unidos.
Expansão da Lista de Organizações Alvo
A lista de organizações criminosas designadas como terroristas pelos EUA se expandiu consideravelmente, refletindo a abrangência da estratégia. Além do PCC e do Comando Vermelho do Brasil, e dos já mencionados cartéis mexicanos e venezuelanos (Trem de Arágua, Cartel dos Sóis), foram também incluídos o Clã do Golfo da Colômbia, os grupos Los Choneros e Los Lobos do Equador, e as gangues transnacionais Bairro 18 e Mara Salvatrucha (MS-13), que possuem ramificações em diversos países da América Central e nos próprios Estados Unidos. Essa abrangência demonstra a intenção de Washington de combater o crime organizado em múltiplos fronts, utilizando a ferramenta antiterrorismo para desmantelar suas redes financeiras e logísticas.
Em suma, a designação de grupos criminosos como terroristas pelos EUA representa uma escalada na política externa americana contra o crime organizado transnacional. Embora seu impacto direto na diminuição da criminalidade ou no enfraquecimento imediato das organizações seja questionado por alguns especialistas, a medida intensifica a pressão financeira, diplomática e judicial, sinalizando uma abordagem mais agressiva e de longo prazo no combate a essas redes ilícitas em toda a América Latina.
Fonte: https://g1.globo.com