Na Arábia Saudita, um dos países que mais aplicam a pena capital globalmente, a dor da execução de um ente querido é frequentemente agravada por uma punição adicional: a recusa em devolver os corpos às famílias. Este 'duplo castigo' impede rituais de luto essenciais e prolonga indefinidamente o sofrimento, conforme relatado por familiares de Kibrom Kinfe Aregawi, um dos cinco etíopes executados em junho deste ano por contrabando de maconha. Seu pai, Kinfe Aregawi, expressa uma angústia que ecoa em muitas outras famílias: “Isso significará uma vida inteira de pesar e dor para mim”, diante da impossibilidade de um enterro digno para seu filho.
O Impacto da Ausência: Famílias Sem Respostas e Ritos Negados
A negação da repatriação dos restos mortais dos executados, somada à ausência de informações oficiais e de pertences pessoais, transforma o luto em um processo incompleto e torturante. Para a fé cristã ortodoxa etíope, um enterro formal com o corpo envolto em uma mortalha cerimonial é um pilar da despedida, algo negado a Kibrom Kinfe Aregawi, de 25 anos, e a outros. Organizações de direitos humanos, como a Human Rights Watch (HRW), que registrou 116 execuções na Arábia Saudita até julho, e a Organização Saudita Europeia para os Direitos Humanos (ESOHR), classificam essa prática como uma extensão da punição à família. A relatora especial da ONU sobre liberdade de religião, Nazila Ghanea, chegou a descrever a retenção de corpos como 'tortura e abuso', destacando a dimensão moral e legal da questão.
A Trajetória Interrompida de Kibrom Kinfe Aregawi
A história de Kibrom Kinfe Aregawi é um testemunho das complexas razões que levam muitos a arriscar suas vidas em busca de uma oportunidade. Em 2020, ele já havia sido detido e deportado da Arábia Saudita, para onde retornara sem visto na companhia do pai. No entanto, a eclosão da guerra civil na Etiópia o impeliu a uma segunda tentativa em 2023, atravessando o Mar Vermelho e o Iêmen a pé. Novamente detido pelas autoridades sauditas, Kibrom foi acusado de tráfico de drogas e, após apenas três meses de prisão, foi condenado à morte, sendo executado repentinamente em junho. Sua família relata ter descoberto a morte pelas redes sociais, sem qualquer aviso prévio ou acesso aos seus pertences e certidão de óbito, alimentando a crença do pai em sua inocência e em um julgamento injusto.
Tsigabu Gebremariam: A Promessa de um Retorno em Silêncio
Na mesma prisão e no mesmo dia que Kibrom, Tsigabu Gebremariam, de 26 anos, também foi executado sob a mesma acusação. O jovem, que era o único filho homem de sua família em Tigray Central, Etiópia, havia deixado sua casa aos 18 anos, fugindo da pobreza e do conflito, buscando ajudar seus pais e sete irmãs. Após três anos e meio de prisão, a última comunicação de Tsigabu com sua família, em fevereiro, trazia a promessa de um retorno para casa e casamento. Em vez disso, sua mãe, que já procurava uma noiva, se viu organizando um funeral simbólico, enquanto a família recebia a notícia de sua execução por meio de parentes na Arábia Saudita. A impossibilidade de sepultar o corpo de Tsigabu deixa um vazio imensurável, especialmente para suas irmãs, que esperavam canções de casamento e agora enfrentam uma dor ainda maior.
O Contexto Internacional e as Denúncias de Direitos Humanos
A Arábia Saudita se destaca como um dos países com as maiores taxas de execução no mundo, ficando atrás apenas da China e do Irã. Esta estatística, aliada à prática de reter corpos e à falta de transparência nos processos judiciais, tem sido alvo de intensas críticas internacionais. Organizações como a Reprieve MENA, que defende vítimas de graves violações de direitos humanos, e a ESOHR têm documentado esses casos, denunciando não apenas a severidade das sentenças, mas também a desumanidade imposta às famílias. A ausência de aviso prévio às famílias sobre as execuções e a negação de acesso a certidões de óbito e pertences pessoais configuram uma série de violações que impedem o fechamento do ciclo de luto e geram sofrimento contínuo, ecoando a necessidade urgente de revisão das políticas sauditas em relação à pena de morte e ao respeito aos direitos humanos.
A dor de Kinfe e Letechristos, que choram seus filhos Kibrom e Tsigabu, é um reflexo do profundo impacto humano de uma política que transcende a punição legal, atingindo o cerne da dignidade e da fé. A recusa em devolver os corpos não apenas nega a estas famílias o direito a um enterro religioso, mas os condena a um luto eterno, marcado pela ausência e pela falta de respostas. A comunidade internacional continua a pressionar por maior transparência, justiça e respeito aos direitos humanos na Arábia Saudita, na esperança de que essas práticas desumanas cheguem ao fim e que o consolo, mesmo que tardio, possa alcançar aqueles que ficaram para trás.
Fonte: https://g1.globo.com