O Tren de Aragua (TDA), uma das organizações criminosas mais brutais e expansivas da América Latina, consolidou sua presença no norte do Brasil, gerando um cenário de alta tensão e desafios para as autoridades locais. Com ramificações que se estendem por diversos países sul-americanos, a facção venezuelana não apenas aterroriza comunidades, mas também atrai a atenção de potências globais, como os Estados Unidos, que a classificaram como organização terrorista estrangeira. Esta designação eleva o patamar de combate ao grupo e ressalta a complexidade de suas operações, que incluem desde tráfico humano e extorsão até narcoterrorismo.
O Impacto do Tren de Aragua em Roraima
A gravidade da atuação do Tren de Aragua em solo brasileiro é evidenciada por incidentes alarmantes, como a descoberta de um cemitério clandestino em Boa Vista, Roraima, no início de 2025. Nove corpos, em sua maioria de vítimas venezuelanas, foram encontrados, atribuídos a execuções perpetradas por diferentes criminosos, incluindo membros da facção. Uma testemunha crucial, ex-olheiro do TDA, que revelou o local às autoridades, reportou estar sendo perseguida pelo grupo, que também sequestrou sua família, demonstrando a truculência e o nível de intimidação exercidos. Relatos indicam que a organização já opera em, pelo menos, quatro municípios do estado de Roraima, aproveitando a proximidade geográfica com a Venezuela para fortalecer suas células e expandir seus negócios ilícitos.
Da Prisão de Tocorón à Expansão Transnacional
A história do Tren de Aragua remonta à prisão de Tocorón, no centro-norte da Venezuela, a cerca de 60 km de Caracas, onde a facção foi fundada e dominou a vida intramuros sob o comando dos 'pranes' (líderes criminosos) desde o início dos anos 2010. O controle do grupo sobre a penitenciária permitiu o desenvolvimento de uma estrutura organizacional complexa e a expansão de suas atividades criminosas para além das fronteiras venezuelanas. Atualmente, o TDA está presente em países como Colômbia, Bolívia, Peru e Chile, e sua chegada ao Brasil, com indícios datando de 2016, marcou um novo capítulo em sua trajetória de terror e expansão.
Alvo de Washington: A Designação de Terrorismo
Em um desenvolvimento significativo, o Tren de Aragua entrou na mira do ex-presidente americano Donald Trump, que, através do Departamento de Estado dos Estados Unidos, classificou o grupo como organização terrorista estrangeira em 2024. Esta designação, anteriormente aplicada a facções brasileiras como o PCC e o Comando Vermelho, sublinha a percepção americana sobre a ameaça global que o TDA representa. O governo dos EUA descreve o TDA como um grupo 'brutal' envolvido em sequestros, extorsão, tráfico de pessoas para exploração sexual, contrabando de mercadorias e migrantes, mineração ilegal, tráfico de drogas e roubo. Há ainda acusações de que a organização mantém vínculos com o governo de Nicolás Maduro, que aguarda julgamento na Justiça americana por narcoterrorismo, tráfico de drogas e porte ilegal de armas, o que adiciona uma camada geopolítica à sua atuação.
O Golpe em Tocorón e a Reconfiguração da Liderança
A facção sofreu um revés em setembro de 2023, quando o governo venezuelano retomou o controle da prisão de Tocorón. A operação foi considerada um golpe significativo para a estrutura do TDA, com especialistas apontando um enfraquecimento do grupo e a perda de parte de sua cobertura política. Contudo, relatos da imprensa local sugerem que as lideranças foram alertadas previamente, permitindo que chefes como Yohan José Romero, conhecido como 'Johan Petrica', fugissem com armas e dinheiro. Petrica, um dos 'pais' do TDA, agora é apontado como o controlador de um dos principais redutos da quadrilha em Las Claritas, uma cidade fronteiriça com o Brasil, de onde se acredita que partem as ordens para os criminosos que atuam em território brasileiro. Ele e outros três membros da facção foram indiciados por terrorismo e distribuição internacional de drogas pela Procuradoria dos Estados Unidos em dezembro de 2023, embora seu paradeiro atual seja desconhecido.
O Perfil da Atuação do Tren de Aragua no Brasil
A presença do Tren de Aragua no Brasil se consolidou, principalmente na região Norte, beneficiando-se da crise humanitária e da instabilidade na Venezuela. Pesquisadores apontam que os criminosos encontraram no Brasil condições mais favoráveis para expandir seus negócios e lavar dinheiro ilícito, fugindo da notoriedade e perseguição em seu país de origem. Em Roraima, a organização se fortaleceu por meio do tráfico de drogas e de armas, o controle de esquemas de prostituição, o transporte ilegal de migrantes, a concessão de empréstimos usurários e a extorsão. A infiltração do grupo é tamanha que Johan Petrica, antes de ser indiciado, teria transitado livremente pela fronteira com Roraima por anos, chegando a ter um filho em território brasileiro, o que evidencia a profundidade de suas raízes e a complexidade do desafio que o Tren de Aragua impõe às forças de segurança brasileiras e internacionais.
Fonte: https://g1.globo.com