O Peru vive novamente um momento de intensa incerteza política. Uma pesquisa de boca de urna divulgada pelo instituto Ipsos neste domingo (7), logo após o fechamento das urnas, aponta a candidata Keiko Fujimori numericamente à frente na disputa presidencial. Contudo, a estreita margem de votos sugere um cenário de empate técnico, refletindo a profunda polarização e a fragilidade institucional que há anos marcam a nação andina.
Este resultado preliminar não apenas mantém o país em suspense, aguardando a totalização oficial dos votos, mas também lança luz sobre a complexa teia de desafios políticos que o próximo presidente terá que enfrentar em um contexto de deslegitimação das instituições e desconfiança pública sem precedentes.
Eleições Presidenciais: Um Cenário de Empate Técnico
De acordo com os dados preliminares da Ipsos, Keiko Fujimori obteve 50,7% dos votos válidos, enquanto seu oponente, Roberto Sánchez, alcançou 49,3%. A pesquisa, fundamentada em 18 mil entrevistas realizadas em todo o território peruano, indica uma margem de erro de 3 pontos percentuais para mais ou para menos, o que classifica a disputa como um empate técnico e adiciona dramatismo à contagem final. Keiko, representante da direita e filha do ex-presidente Alberto Fujimori, já havia se destacado no primeiro turno, enquanto Sánchez, candidato de esquerda, assegurou sua vaga na segunda rodada da votação, culminando nesta apertada corrida.
Uma Década de Crise e Fragmentação Política
A polarização observada neste segundo turno não é um evento isolado, mas sim um reflexo de uma prolongada crise política e de uma deslegitimação institucional que se acentuou nos últimos anos. O pleito atual, que inicialmente contou com um número recorde de 35 candidatos à presidência, evidencia a fragmentação do cenário político peruano. Especialistas apontam que essa volatilidade é um sintoma da incapacidade de governar por parte dos presidentes eleitos, resultando em uma instabilidade crônica que impede a consolidação democrática e a implementação de políticas públicas eficazes.
A Volatilidade da Presidência Peruana
A fragilidade do sistema político peruano é dramaticamente ilustrada pela sucessão de chefes de estado: o país registrou nove presidentes em apenas dez anos. Considerando que um mandato presidencial no Peru é de cinco anos, essa estatística revela uma ausência quase completa de estabilidade. Muitos desses líderes permaneceram no cargo por curtos períodos, alguns nem mesmo por cinco dias. Um exemplo recente dessa realidade é o mandato de Dina Boluarte, que, embora tenha durado quase três anos, chegou ao fim após desagradar a oposição liderada pela coalizão fujimorista no Congresso, evidenciando a constante batalha entre os poderes Executivo e Legislativo.
Mecanismos de Instabilidade: O Artigo 113 e o Poder do Congresso
Essa sucessão acelerada de presidentes é facilitada por um dispositivo constitucional polêmico: o artigo 113 da Constituição peruana. Ele permite que um presidente seja destituído por “incapacidade moral ou física permanente”, um diagnóstico que é avaliado e decidido pelos parlamentares. Na prática, isso confere ao Congresso um poder considerável para remover presidentes em menos de 24 horas, bastando uma votação. Essa dinâmica, segundo analistas, expõe a fragilidade institucional do Peru, onde a coalizão fujimorista, muitas vezes majoritária no Congresso, tem historicamente articulado influências no Legislativo, nos tribunais e no sistema judiciário para atingir seus objetivos políticos.
A Trajetória de Keiko Fujimori e o Cenário Persistente
Desde 2008, Keiko Fujimori tem sido uma figura central na política peruana, liderando a corrente fujimorista ao fundar o partido Fuerza Popular e buscando reiteradamente a presidência. Esta é sua quarta tentativa de chegar ao Poder Executivo, e as três eleições anteriores (2011, 2016 e 2021) resultaram em derrotas apertadas no segundo turno. A eleição atual, com um resultado tão próximo, espelha esse padrão de disputas acirradas e ressalta a dificuldade em consolidar um consenso político duradouro no país.
Desconfiança Crônica: O Impacto na Democracia Peruana
A crise de governabilidade e a constante disputa entre o Executivo e o Legislativo têm consequências profundas na percepção da população sobre a democracia. A credibilidade das instituições peruanas atingiu níveis alarmantemente baixos na última década. Dados do Latinobarómetro, que avalia a democracia na América Latina, revelam que o Peru enfrenta um dos menores índices de confiança institucional na região. Mais de 90% dos peruanos expressam pouca ou nenhuma confiança no governo e no Congresso, e apenas 10% se dizem satisfeitos com a democracia. Essa “desconfiança crônica” é agravada por um sentimento perigoso de indiferença em relação à política ou ao tipo de regime de governo, um terreno fértil para a proliferação de partidos “pouco institucionalizados”, sem raízes sólidas na sociedade.
Conclusão: Um Futuro Incerto
Independentemente de quem seja declarado vencedor nesta apertada eleição, o próximo presidente do Peru herdará um país em um estado de crise política e institucional. A vitória por uma margem tão pequena, somada à desconfiança generalizada nas instituições e à cultura de instabilidade, significa que o desafio de governar será imenso. A capacidade de pacificar o cenário político, restaurar a confiança pública e promover a estabilidade democrática será a principal tarefa, e talvez a maior provação, para o novo líder peruano.