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A Lógica do Dote: Como a Tradição Proibida Alimentou o Aumento de Feminicídios na Índia

G1

A Índia, apesar de ter proibido o dote há mais de seis décadas, ainda enfrenta uma realidade alarmante onde a prática persiste de forma generalizada, culminando em um trágico aumento dos feminicídios. Um estudo antropológico conduzido pelo King's College de Londres lança uma nova luz sobre essa complexa dinâmica, revelando como as exigências financeiras relacionadas ao casamento se transformaram em um catalisador de violência e mortes de mulheres no país.

A Ressignificação de uma Tradição Proibida

Publicada pela renomada universidade britânica, a pesquisa detalha como o dote, embora ilegal desde 1961, evoluiu para uma exigência intrínseca ao mercado matrimonial indiano. Longe de desaparecer, a prática assumiu uma nova configuração, onde o valor e os bens exigidos – que podem incluir dinheiro em espécie, joias, carros de luxo ou motocicletas de alto padrão – são diretamente proporcionais ao status social do noivo. Essa transação, muitas vezes vista como uma condição prévia para a união, coloca um fardo financeiro imenso sobre as famílias das noivas.

A Escalada Silenciosa da Violência e dos Feminicídios

As consequências dessa lógica mercantil são brutais. Quando a família da noiva não consegue atender às demandas, a mulher pode ser submetida a um ciclo de assédio, violência física e, em casos extremos, ser queimada viva. Os números refletem uma crescente e perturbadora escalada: enquanto no início dos anos 1990 a Índia registrava cerca de 2 mil mortes anuais relacionadas ao dote, o estudo aponta que, atualmente, esse número ultrapassa as 6.500 vítimas por ano. Essa realidade é noticiada quase diariamente pela imprensa indiana, de forma que o estudo descreve como "banalizada", indicando uma sociedade que se habituou a tratar o casamento como uma mera transação financeira, contribuindo para a falta de indignação coletiva diante de tal violência.

O 'Retorno do Investimento' e a Lógica Extrativista

O estudo aprofunda a compreensão dessa dinâmica, explicando que, para muitas famílias, ter um filho homem é encarado como um investimento de longo prazo. Recursos significativos são dedicados à sua formação, visando carreiras de prestígio como engenheiro ou médico. Nesse contexto, o dote se torna uma forma de recuperar esses gastos e garantir um retorno financeiro. A noiva, portanto, é avaliada sob uma "lógica extrativista": se ela não consegue satisfazer as exigências financeiras, passa a ser considerada um "mau negócio" a ser, literalmente, "eliminado". Essa percepção mercantilista ajuda a explicar os alarmantes índices de feminicídio, com uma média de 15 a 16 mulheres sendo assassinadas diariamente no país.

Feminicídio Estrutural e a 'Organização da Indiferença'

O relatório do King's College descreve essa realidade como um feminicídio estrutural, que se tornou invisibilizado por uma "organização da indiferença". Enquanto nos anos 1980, casos de mulheres queimadas vivas por motivos de dote provocavam grandes escândalos públicos, hoje as agressões assumem formas mais insidiosas. O assédio contínuo e a pressão psicológica levam muitas esposas ao suicídio, um desfecho que frequentemente esconde a violência subjacente. A sociedade parece ter desenvolvido uma infraestrutura de indiferença que permite que essa tragédia se perpetue sem a devida comoção.

Abortos Seletivos e o Desequilíbrio Demográfico

As ramificações perversas desse sistema se estendem até mesmo antes do nascimento. Para evitar a futura despesa com o pagamento de um dote, algumas famílias recorrem a abortos seletivos, eliminando preventivamente meninas ainda no útero. Essa prática tem gerado um grave desequilíbrio demográfico em nível nacional, onde a proporção de nascimentos caiu para 927 meninas para cada mil meninos. Em estados como Punjab, no norte do país, a situação é ainda mais crítica, com apenas 754 meninas para cada mil meninos nascidos, evidenciando o profundo impacto cultural e social do dote.

Rumo a uma Revolução Cultural: O Apelo dos Movimentos Feministas

Diante da ineficácia das leis existentes, movimentos feministas e organizações de defesa dos direitos das mulheres na Índia argumentam que a solução não reside em reformas, mas sim em uma verdadeira revolução cultural. Essas militantes se esforçam para mobilizar os jovens a boicotar o sistema de dotes, incentivando-os a rejeitar essa lógica de mercado aplicada ao casamento. Para elas, enquanto a mentalidade coletiva não mudar e o nascimento de uma menina continuar sendo visto como um desastre financeiro, esse "massacre silencioso" persistirá, destruindo vidas e a própria estrutura da sociedade. Contudo, essas vozes de mudança encontram cada vez menos eco diante das persistentes "infraestruturas da indiferença" que permeiam a cultura indiana.

Fonte: https://g1.globo.com

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