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Nepal em Ruínas: A Luta Desesperada em Túneis Submersos e o Grito dos Sobreviventes

G1

As enchentes repentinas e mortais que assolaram o Nepal em 26 de agosto transformaram o rio Trishuli em uma força implacável, engolindo povoados e infraestruturas vitais. Entre as histórias de devastação, emerge o relato aterrorizante de trabalhadores de usinas hidrelétricas que foram tragados pela fúria das águas dentro dos túneis subterrâneos. Enquanto operações de busca e resgate persistem, revelando a dimensão da tragédia humana, um sobrevivente narra os momentos de pânico e a luta contra a correnteza que custou a vida de milhares e deixou um rastro de dor e incerteza.

O Pânico Subterrâneo: A Corrida Contra a Inundação

Pemba Dundu Tamang, um dos operários envolvidos na construção do revestimento de concreto em um dos túneis, descreve o início da catástrofe com uma súbita e poderosa rajada de ar. Essa força descomunal lançou placas de compensado e deslocou máquinas pesadas, prenunciando o terror que viria. Do lado de fora, a paisagem já se desfazia, com casas sendo arrastadas pela correnteza. Em questão de instantes, a equipe de cerca de 30 pessoas se viu em um cenário de caos. Tamang, impulsionado pelo instinto de sobrevivência, correu desesperadamente em direção à entrada, com a água invadindo o túnel em seu encalço. Sua fuga durou aproximadamente 20 minutos, uma corrida ladeira acima para escapar da enxurrada implacável. Colegas como Itha Ghale também relatam a intensidade do vento, que quase os derrubou durante a fuga, enquanto Tamang mal conseguia raciocinar, atordoado pelo choque.

As Cifras da Tragédia e a Busca Contínua

A tragédia das enchentes no Nepal resultou em mais de mil mortos, com as autoridades estimando cerca de 4 mil desaparecidos, muitos deles trabalhadores como Tamang, atuando na vasta rede de túneis de usinas hidrelétricas ao longo do rio. A operação de resgate é complexa, com engenheiros bombeando ar para dentro das galerias na esperança de encontrar sinais de vida, embora um drone com câmera térmica não tenha detectado indícios de sobreviventes em um dos túneis. O porta-voz do Exército do Nepal, Raja Ram Basnet, confirmou a continuidade das buscas e do trabalho de seus soldados na recuperação de corpos e na prevenção de doenças. Até o momento da última atualização, 119 pessoas haviam sido resgatadas em uma única terça-feira, um testemunho da escala dos esforços em curso.

A Essência Hidrelétrica do Nepal e a Vulnerabilidade Humana

O Nepal, que obtém mais de 99% de sua eletricidade de usinas hidrelétricas, dependia fortemente de projetos como o complexo Trishuli-3B superior, onde Tamang e Ghale trabalhavam. Essa usina, com inauguração prevista para o próximo ano, foi projetada para otimizar o uso da água de outra hidrelétrica a montante, contribuindo significativamente para a rede nacional de energia. No momento da inundação, diversas equipes estavam no local, e os operadores das grandes máquinas de revestimento do túnel foram, segundo Tamang, os últimos a tentar sair. A verdadeira dimensão do desastre só se revelou a ele quando percebeu que sua casa, situada às margens do rio, havia sido completamente varrida, levando consigo seis membros de sua família: sua mãe, irmão mais velho, cunhada e os três filhos do casal. Apenas sua esposa, um filho e um sobrinho conseguiram escapar do implacável avanço das águas.

O Peso da Sobrevivência e o Apelo por Apoio

Para Tamang, a sobrevivência trouxe um fardo emocional avassalador. Ele expressa a dor de ter perdido entes queridos e a incerteza do futuro, questionando o sentido da vida sem ter onde comer ou para onde ir. “Os mortos estão em paz. Somos nós, que sobrevivemos, que sofremos”, lamenta. Itha Ghale, que perdeu oito familiares, incluindo sua mãe e filha mais velha, compartilha o sentimento de descrença, ponderando sobre o destino que o poupou enquanto outros foram levados. Tamang, que se abrigou em Shanti Bazar com cerca de 50 a 60 colegas antes de ser resgatado pelo Exército após dois dias, teme pelas consequências futuras, especialmente se os projetos hidrelétricos forem interrompidos, o que poderia levar à fome. Ele acredita que recursos mais adequados no local poderiam ter salvado mais vidas.

Sinais Ignorados e a Urgência da Prevenção

A escala da tragédia reacende o debate sobre a prevenção e os sistemas de alerta. Um novo relatório aponta que houve sinais crescentes de instabilidade na região da geleira nos dias que antecederam o desastre. Isso sugere que sistemas de alerta mais eficientes poderiam ter mitigado o impacto e salvado um número significativo de vidas. A dependência do Nepal de suas vastas usinas hidrelétricas, essenciais para seu desenvolvimento e fornecimento de energia, expõe a nação a riscos inerentes a eventos climáticos extremos e à complexa geologia montanhosa, ressaltando a necessidade crítica de investimentos em monitoramento e infraestrutura resiliente.

A devastação no Nepal é uma dolorosa lembrança da vulnerabilidade humana diante da força da natureza, agravada por desafios de desenvolvimento e infraestrutura. As histórias de sobrevivência e perda, como as de Pemba Dundu Tamang e Itha Ghale, ressaltam não apenas o horror vivido, mas também a resiliência de um povo. Enquanto as operações de resgate e recuperação continuam, a atenção se volta para a necessidade urgente de apoio aos sobreviventes, reconstrução das comunidades e implementação de estratégias robustas de prevenção e alerta precoce, para que tragédias de tamanha magnitude possam ser minimizadas no futuro e a vida possa, eventualmente, reencontrar seu sentido.

Fonte: https://g1.globo.com

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