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Atlas da Mobilidade Social: Gênero, Raça e Origem Familiar Freiam a Ascensão no Brasil

© Tânia Rêgo/Agência Brasil

O cenário da mobilidade social no Brasil revela uma complexa teia de desigualdades, onde fatores como gênero, raça e a condição socioeconômica da família de origem atuam como barreiras significativas para a ascensão. É o que aponta o recém-lançado Atlas da Mobilidade Social, uma plataforma pública desenvolvida pelo Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (Imds) em colaboração com o grupo de pesquisa Prospera Lab. O estudo detalha como esses condicionantes perpetuam a estratificação social, oferecendo um panorama desafiador das oportunidades disponíveis para os brasileiros.

A Herança da Pobreza: O Peso da Origem Familiar

Uma das descobertas mais marcantes do Atlas é a forte correlação entre a origem familiar e as chances de sucesso na vida adulta. Jovens nascidos em famílias que figuram entre os 25% mais pobres da distribuição de renda enfrentam uma probabilidade de quase 48% de permanecerem nesse mesmo estrato de pobreza quando adultos. A ruptura desse ciclo é rara: apenas 8,32% desses indivíduos conseguem ascender ao grupo dos 25% mais ricos, e um ínfimo 1,28% alcança o patamar dos 10% de maior renda do país. Essa realidade contrasta drasticamente com a trajetória daqueles que partem de uma base mais privilegiada. Filhos de famílias na faixa intermediária de renda (entre os 26% e 75% mais ricos) têm 17,5% de chance de chegar aos 25% mais ricos. Para quem já nasce no quartil superior de renda, as oportunidades são ainda mais amplas: 56,5% permanecem nesse grupo, e 30,8% avançam para os 10% mais ricos.

Gênero e Raça: Determinantes na Trajetória Social

Além da origem familiar, o estudo enfatiza o papel crucial de gênero e raça na determinação da mobilidade social. A cor da pele, por exemplo, é um fator isolado que agrava as dificuldades de ascensão. Entre jovens não brancos nascidos nas famílias mais pobres, a probabilidade de permanecer nesse grupo na vida adulta é de 51,6%. Para seus pares brancos na mesma situação de origem, esse percentual é significativamente menor, 36,3%. Os dados também revelam uma profunda disparidade de gênero: enquanto aproximadamente um terço dos homens (32,9%) nascidos nos 25% mais pobres se mantém nesse estrato na fase adulta, entre as mulheres essa proporção salta para 65,1%. Quando os recortes de raça e gênero são combinados, a vulnerabilidade se intensifica, com 69% das mulheres não brancas nascidas em famílias de baixa renda permanecendo nesse grupo, em contraste com 52,9% das mulheres brancas na mesma condição de origem.

Persistência Geracional e Disparidades Regionais Profundas

A análise geracional do Atlas da Mobilidade Social aponta para uma notável resiliência na hierarquia de oportunidades. Comparando duas gerações — nascidos entre 1983 e 1987 e entre 1988 e 1990 —, observa-se que, apesar de um ligeiro incremento na mobilidade, as chances de ascensão social dos filhos permanecem em grande parte atreladas às dos pais. A probabilidade de filhos de famílias dos 25% mais pobres ascenderem aos 25% mais ricos aumentou modestamente de 7,9% para 8,8% entre as gerações. Da mesma forma, para filhos de famílias de renda média, a chance de alcançar o quartil mais rico subiu apenas de 16,6% para 18,6%, reforçando a estagnação da mobilidade. Essas desvantagens sociais se manifestam de forma desigual no território nacional. As regiões Norte e Nordeste apresentam, de maneira geral, as menores taxas de mobilidade, indicando uma persistência da pobreza intergeracional. Em contraste, o Sul, Sudeste e partes do Centro-Oeste exibem maior dinamismo. As diferenças são gritantes: enquanto em Assis Brasil (AC) 84,4% dos jovens de famílias pobres permanecem nessa condição, em Ponte Serrada (SC) apenas 2,13% vivenciam a mesma realidade, demonstrando o abismo de oportunidades entre os municípios brasileiros.

Educação: A Chave para Transformar Destinos

Entre os diversos indicadores socioeconômicos examinados, a educação emerge como a dimensão mais intrinsecamente ligada à mobilidade social. Municípios que ostentam melhores índices educacionais, caracterizados por um Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) elevado e menor distorção idade-série, tendem a proporcionar maiores chances de ascensão. Essa constatação reforça a importância das políticas públicas voltadas para o ensino. Paulo Tafner, presidente do Imds, sublinha a urgência de reduzir as desigualdades de origem para impulsionar a mobilidade social. Segundo ele, é imperativo que as políticas educacionais sejam complementadas por estratégias econômicas que ampliem as oportunidades ao longo da vida, visando munir gestores públicos com evidências concretas para o desenho de ações mais eficazes na promoção da ascensão social.

O Atlas da Mobilidade Social, fundamentado em dados e metodologia do artigo acadêmico 'Intergenerational Mobility in the Land of Inequality' (Britto et al., 2025), oferece um diagnóstico aprofundado dos entraves e desafios à mobilidade no Brasil. Suas análises servem como um alerta e um roteiro para a formulação de intervenções que busquem construir uma sociedade mais equitativa, onde o ponto de partida não determine o destino e as oportunidades sejam acessíveis a todos.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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