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Vierzon: Cancelamento de Cerimônia Antiescravidão Pela Extrema Direita Gera Forte Controvérsia na França

G1

A cidade francesa de Vierzon, sob nova gestão de extrema direita desde março, viu-se no centro de uma intensa polêmica após a prefeitura decidir não realizar a comemoração oficial da abolição da escravidão, tradicionalmente celebrada em 10 de maio. A decisão, justificada por razões financeiras e alegada falta de interesse da população, provocou a indignação de grupos de oposição e associações antirracistas, que a veem como um gesto político de violência simbólica.

Justificativas Oficiais e A Situação Financeira de Vierzon

O vice-prefeito de Vierzon, Yves Husté, defendeu a supressão das celebrações, citando a precária situação financeira do município, que acumula uma dívida de 32 milhões de euros e 2,5 milhões em contas não pagas. Segundo Husté, o custo estimado de 1.500 euros para a cerimônia seria um gasto desnecessário em um momento de austeridade fiscal, com a administração empenhada em economizar em todas as áreas.

Além das preocupações orçamentárias, a prefeitura também argumentou a falta de participação popular nos eventos anteriores. Husté afirmou que a cerimônia 'ninguém comparecia' e que a data, por se referir a 'um fato histórico que não tem nenhuma ligação com o presente', não despertava interesse significativo entre os 25 mil habitantes da cidade.

Forte Reação da Oposição e Sociedade Civil

A decisão da nova administração de Vierzon foi duramente criticada. Nicolas Sansu, deputado comunista e ex-prefeito da cidade, que havia instituído a comemoração durante seu mandato, denunciou publicamente o cancelamento. Para Sansu, a medida não se trata de esquecimento ou economia, mas sim de uma 'vontade de agradar as alas mais racistas do eleitorado de extrema direita'. Em protesto, ele organizou uma cerimônia informal no domingo, 10 de maio, para manter viva a memória da data.

O Conselho Representativo das Associações Negras da França (Cran) também se manifestou, qualificando a decisão como um 'ato político de uma violência simbólica inaceitável'. O presidente do Cran, Haidari Nassurdine, enfatizou que 'apagar um dia nacional dedicado à memória do tráfico negreiro, da escravidão e de suas abolições equivale a atacar frontalmente um dever republicano fundamental: o de reconhecer os crimes contra a humanidade que moldaram a nossa história'. Apesar da controvérsia, o vice-prefeito Husté reiterou que não impediu a realização de cerimônias por parte de outros grupos, como a organizada pelo ex-prefeito.

A Importância da Data e o Contexto Histórico da Abolição na França

O dia 10 de maio é reconhecido oficialmente na França como a data nacional de comemoração da abolição da escravidão. Esta data, instituída por uma lei de 2001 e um decreto presidencial de 2006, não marca a abolição em si, mas sim o reconhecimento jurídico e simbólico pela República Francesa da escravidão como um crime contra a humanidade. Várias cidades francesas organizam cerimônias anuais para marcar a data e manter viva a memória histórica.

Historicamente, a França aboliu a escravidão pela primeira vez em 1794, durante a Revolução Francesa. No entanto, essa medida foi posteriormente revogada por Napoleão Bonaparte. A abolição definitiva ocorreu em 27 de abril de 1848, marcando um capítulo crucial na história do país e nos direitos humanos.

A Virada Política em Vierzon

A polêmica em Vierzon ocorre em meio a uma significativa mudança política na cidade. Historicamente governada pela esquerda desde o fim da Segunda Guerra Mundial, e por um partido comunista desde 2008, Vierzon viu uma lista de união da extrema direita vencer as eleições municipais no fim de março. A candidatura de Yannick Le Roux, um policial de 50 anos que liderou uma lista incluindo membros do Reunião Nacional, partido de Marine Le Pen, obteve 47,87% dos votos válidos no segundo turno, representando uma guinada sem precedentes na administração local.

Este cenário político renovado adiciona uma camada de complexidade à decisão de cancelar a celebração, intensificando o debate sobre a relação entre políticas de austeridade, memória histórica e a representação de valores republicanos em cidades administradas por ideologias de extrema direita na França.

Fonte: https://g1.globo.com

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