A 11ª Marcha das Mulheres Negras de São Paulo transformou a Praça Roosevelt, na região central da capital paulista, em um palco de resistência e reivindicação neste sábado de julho. Centenas de pessoas, vindas de diversas cidades e bairros, uniram-se a lideranças políticas, feministas, religiosas, artistas e representantes de movimentos da comunidade negra para reafirmar o lema deste ano: “Há 10 anos por Luana Barbosa e por todas nós! Por direitos, reparação e Bem Viver! Mulheres negras nas ruas e nas urnas!”. O evento não apenas celebrou a força e a ancestralidade feminina negra, mas também lançou luz sobre a persistente ausência de justiça para casos de violência racial e de gênero.
Dez Anos sem Justiça para Luana Barbosa: Um Símbolo da Violência Sistêmica
O marco central da marcha foi a memória de Luana Barbosa, mulher lésbica, negra e periférica, brutalmente agredida por policiais militares em abril de 2016 na rua onde morava, vindo a falecer. Passada uma década, o caso segue impune, sem que nenhum envolvido tenha sido preso ou condenado. A ausência de justiça para Luana ressoa como um doloroso lembrete da vulnerabilidade de mulheres negras no Brasil. Juliana Gonçalves, membro e cofundadora do evento, enfatizou a urgência de quebrar esse ciclo: “Dez anos se passaram e muitas Luanas Barbosas seguem morrendo, como a gente viu o caso da Ieda e da Fabiana, duas mulheres negras e lésbicas que foram mortas em São Paulo”, contextualizando a tragédia individual como parte de um padrão de violência.
Vozes Unidas por Direitos, Reparação e Bem Viver
A Marcha das Mulheres Negras transcendeu a homenagem a Luana para se tornar um grito coletivo por transformação social. As ruas foram tomadas com a clareza de que o Estado brasileiro possui uma dívida histórica com a população negra. A demanda por “direitos, reparação e bem viver” foi o fio condutor das falas e dos cartazes. Juliana Gonçalves destacou a essencial contribuição das mulheres negras para a economia, muitas vezes invisibilizada: “As mulheres negras levantam essa economia, fazem o trabalho de cuidado que não é reconhecido e mesmo assim são as que menos ganham”, sublinhando a necessidade de reconhecimento e de políticas públicas que garantam segurança e equidade.
Ancestralidade e Cultura como Ferramentas de Protesto
O evento na Praça Roosevelt foi enriquecido por diversas expressões culturais que celebravam a força e a resistência da mulher negra. A abertura oficial contou com a impactante performance do coletivo Bando das Macuas, um grupo de sete mulheres cuja arte se inspira no povo Macua, do norte de Moçambique. Francine Moura, integrante do coletivo, explicou que a apresentação reverenciou figuras ancestrais, baseada no espetáculo “Anunciação”, que esteve em cartaz em anos anteriores, unindo as presentes em marcha por meio da arte do corpo. Paralelamente, duas DJs se revezaram nas pick-ups, embalando o público com batidas de rap e hip hop, cujas letras reverberavam mensagens de protesto e empoderamento.
A Força da Fé e a Denúncia da Intolerância Religiosa
A presença de mulheres ligadas a diferentes religiões sublinhou a pluralidade e a importância da fé como pilar de resistência. Mulheres de religiões de matriz africana se uniram em denúncia à perseguição religiosa e à falta de segurança. Ìyalóde Marisa de Oya expressou a frustração e a indignação: “Precisamos mostrar que esse povo está aí largado, sofrendo violência, apanhando, que não tem um lugar de fala dentro do governo. Tem muita gente apanhando por causa da cor da pele, porque é de candomblé, porque é de umbanda. Então, você vê que esse país não é assim tão laico como se fala que é”, revelando a disparidade entre o discurso e a realidade. Além delas, lideranças da Rede de Mulheres Negras Evangélicas, grupo ativo desde 2018, também marcaram presença no palco, ampliando o espectro de vozes do movimento.
Movimento Nacional: A Marcha Ecoa em Outras Capitais
A mobilização em São Paulo foi parte de um movimento nacional mais amplo, demonstrando a capilaridade da luta das mulheres negras por todo o Brasil. No mesmo sábado, Salvador, na Bahia, também foi palco de uma caminhada em celebração e protesto. Em Recife, Pernambuco, os atos haviam começado um dia antes, na sexta-feira, dia 24 de julho. Essa coordenação em diversas cidades reforça a união e a organização das mulheres negras na busca por justiça, reparação e reconhecimento de sua fundamental importância na construção do país.
A 11ª Marcha das Mulheres Negras de São Paulo, ao honrar a memória de Luana Barbosa e dar voz a incontáveis histórias de luta, reafirmou a força inabalável do movimento. Com um misto de dor pela injustiça e esperança na transformação, as mulheres negras seguiram marchando, não apenas por elas, mas por um futuro onde a equidade e o respeito sejam a norma, e não a exceção. O grito por justiça, reparação e bem viver, impulsionado pela memória de Luana e a força da ancestralidade, continua a ecoar, exigindo mudanças concretas e um Brasil verdadeiramente inclusivo.