Há 45 anos, um programa de rádio pioneiro e visionário iniciava sua jornada na Rádio Nacional, transformando-se em um marco na comunicação brasileira. O 'Viva Maria', idealizado e ancorado pela jornalista Mara Régia di Perna, nasceu com a missão de dar voz às mulheres e pautar a agenda de seus direitos sociais. Desde sua primeira edição, em 14 de setembro de 1981, a iniciativa se consolidou como uma referência internacional em informação sobre cidadania, gênero e direitos humanos, impactando a vida de milhares de ouvintes em todo o Brasil.
A Gênese de um Sonho: Lançamento e Contexto Histórico
Em um dia marcado pela ansiedade e por um 'coração descompassado', Mara Régia di Perna, então com 30 anos, dava início ao projeto que idealizou. A estreia do 'Viva Maria' em 1981 não foi apenas o lançamento de um programa, mas o eco de uma necessidade urgente na sociedade brasileira. A radialista, rememorando o momento, descreve a 'tremedeira' e a voz rouca, consciente da imensa responsabilidade que assumia ao liderar uma plataforma dedicada integralmente aos direitos das mulheres.
O programa emergiu em uma década crucial para a consolidação da cidadania feminina no país, antecedendo a promulgação da Constituição de 1988, que viria a garantir importantes avanços. Mara Régia teve papel ativo nesse processo, participando da divulgação da 'Carta das Mulheres aos Constituintes' em 1987. Ela destaca que grande parte da articulação do Fórum das Mulheres do Distrito Federal, responsável por esse documento histórico e por outras reivindicações feministas, encontrou no auditório da Rádio Nacional, impulsionada pela força do 'Viva Maria', seu ponto de partida e difusão, solidificando as 'Marias' na comunicação brasileira, como prometia seu memorável anúncio inaugural.
De Temas Diversos ao Combate à Violência Doméstica
Ao longo de suas mais de 8,2 mil edições veiculadas pelas emissoras da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), o 'Viva Maria' abordou uma vasta gama de temas, desde o mercado de trabalho, direitos sociais, saúde e educação até questões de gênero e políticas públicas. A pauta do programa, enriquecida pela participação ativa de ouvintes via telefone e cartas, refletia as demandas e anseios das mulheres de diferentes realidades, moldando-se às suas necessidades e prioridades.
Com o tempo, um assunto em particular ganhou espaço de destaque e urgência: o enfrentamento à violência contra a mulher. Essa inclinação foi profundamente influenciada pela história pessoal de Mara Régia. Nascida e criada no Rio de Janeiro, e posteriormente residente em Brasília, onde cursou jornalismo e publicidade e aprofundou seus estudos em gênero durante dois anos em Londres, a jornalista foi motivada pela experiência de sua própria mãe, Yolanda, vítima de violência doméstica. 'Pensei que deveria fazer algo para as mulheres não sofrerem o que minha mãe estava sofrendo', revela Mara, transformando sua revolta pessoal em um motor para a ação social.
Impacto Concreto e Superação de Desafios
A mobilização e as pressões diárias exercidas pelo 'Viva Maria' tiveram um impacto direto e significativo na formulação de políticas públicas. Um dos marcos mais importantes foi a implementação da primeira Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (DEAM) em Brasília, no ano de 1986. O trabalho incansável da equipe da Rádio Nacional foi rapidamente reconhecido como um 'espaço de cidadania', legitimando a importância do programa na esfera pública e na defesa dos direitos femininos.
No entanto, a atuação engajada de Mara Régia e do 'Viva Maria' não esteve isenta de perigos. A jornalista passou a receber ameaças por telefone, exigindo proteção da polícia local. Em um ato de precaução e coragem, ela chegou a organizar a mudança temporária de seus dois filhos para a casa de familiares fora da capital. Apesar das adversidades e dos riscos pessoais, Mara jamais considerou desistir. Sua determinação inabalável era impulsionada pela crença de que era necessário construir políticas e, ao abraçar seu destino, não poderia traí-lo.
A Rede das 'Marias': Engajamento e Reconhecimento Global
Ao longo de mais de quatro décadas, o 'Viva Maria' construiu uma conexão profunda e duradoura com seu público. As mulheres entrevistadas e as ouvintes assíduas, carinhosamente chamadas de 'Marias' por Mara Régia, transcenderam o papel de meras personagens ou receptoras de informação, tornando-se agentes ativas do programa, multiplicadoras de histórias, esperança e reivindicações. Seja por contatos telefônicos emocionados, cartas manuscritas ou caixas de e-mail lotadas, as mulheres se comunicavam, pedindo desde estradas e melhorias na infraestrutura escolar até oportunidades de trabalho e o pleno exercício da cidadania.
O impacto do programa se estendeu para além do reconhecimento popular, sendo chancelado pela crítica especializada. O 'Viva Maria' acumulou mais de 30 prêmios nacionais e internacionais, solidificando sua posição de excelência na radiodifusão e no jornalismo engajado. Além disso, a relevância do programa atraiu o interesse acadêmico, sendo objeto de pelo menos 30 estudos de pós-graduação, que analisam sua trajetória e contribuições para a sociedade brasileira.
Uma Missão de Vida com Legado Duradouro
Para Mara Régia, o 'Viva Maria' transcendeu a concepção de um simples programa de rádio, transformando-se em uma verdadeira missão de vida, uma dimensão de luta impulsionada por amor e devoção. Mais do que prestar um serviço, a jornalista dedicou-se a cuidar das 'Marias' e de suas causas, personificando a voz e a esperança de inúmeras mulheres.
Um exemplo marcante dessa determinação foi a campanha liderada por Mara no Amapá, para auxiliar vítimas de escalpelamento com doações de perucas. Ao ter sua história revelada pelo programa, a professora Rosinete Serrão, vítima desse trágico acidente com motores de embarcações, emergiu como uma voz potente, mobilizando associações e pessoas para conscientizar e buscar apoio. Esses e tantos outros relatos demonstram que o 'Viva Maria' não apenas informou e educou, mas também agiu, transformou e, por 45 anos, deu um rosto e uma voz a quem precisava ser ouvida, consolidando-se como um pilar essencial na luta pela equidade de gênero e pelos direitos humanos no Brasil.