PUBLICIDADE

Tragédia Anunciada: Venezuela Ignorou Alerta Japonês Sobre Vulnerabilidade Sísmica por Duas Décadas

A Venezuela foi palco, em 24 de junho, de uma devastadora série de terremotos, com magnitudes de 7,2 e 7,5, que atingiram a região norte do país. O impacto foi calamitoso: até o início de julho, os tremores resultaram em mais de 3,5 mil mortos, 16 mil feridos e o colapso de 190 edifícios, com centenas de desaparecidos ainda sob os escombros.

Contudo, a dimensão desta tragédia ganha um contorno ainda mais sombrio ao se revelar que, duas décadas antes, um estudo detalhado elaborado por uma agência governamental japonesa já havia alertado o país sobre suas profundas vulnerabilidades sísmicas e recomendado um plano abrangente de mitigação.

O Plano Preventivo Elaborado pelo Japão

O relatório em questão foi produzido pela Agência de Cooperação Internacional do Japão (JICA), a pedido do próprio governo venezuelano, com os trabalhos tendo início em 2002 e a entrega oficial ocorrendo em 2005. O documento, agora acessado pelo g1, analisou os riscos sísmicos na região metropolitana de Caracas e propôs um total de 20 projetos destinados a reduzir os potenciais danos causados por terremotos e deslizamentos de terra, sete dos quais foram classificados como prioritários.

A implementação dessas medidas, na época, foi estimada em cerca de US$ 2,8 bilhões ao longo de 16 anos, com uma parcela substancial, aproximadamente US$ 2,6 bilhões, destinada especificamente ao reforço estrutural de edificações.

Recomendações Chave para a Segurança Urbana

Entre as principais diretrizes contidas no estudo japonês, destacavam-se ações cruciais para a resiliência urbana e a salvaguarda da população. As recomendações abrangiam desde o reforço estrutural de cerca de 180 mil edifícios considerados vulneráveis e o fortalecimento de pontes, até a construção de barragens para conter fluxos de lama e pedras em áreas de risco.

Além das intervenções físicas, o plano preconizava a instalação de sistemas de alerta precoce para a população, a criação de um centro de comando para gestão de emergências e o reassentamento de comunidades situadas em zonas de alto risco sísmico ou de deslizamentos. Estas propostas visavam criar uma infraestrutura robusta e um sistema de resposta eficiente para mitigar os impactos de futuros eventos sísmicos.

Projeções Dramáticas e o Potencial de Mitigação

Um dos aspectos mais contundentes do relatório japonês eram as simulações detalhadas dos efeitos que diferentes terremotos poderiam provocar em Caracas. Em um cenário análogo ao tremor de magnitude 6,6 ocorrido em 1967, o estudo projetava cerca de 10 mil edifícios gravemente danificados, 602 mortos e mais de 4,3 mil feridos.

As estimativas se tornavam ainda mais alarmantes em uma simulação baseada no terremoto de magnitude 7,1 de 1812, prevendo mais de 32 mil edifícios seriamente comprometidos, 2.528 mortos e 17,6 mil feridos. Os técnicos japoneses, no entanto, concluíram que a plena adoção do programa de reforço estrutural teria o poder de reduzir drasticamente esses impactos, diminuindo em quase 90% a estimativa de mortes no cenário mais severo, de 2.528 para 274, e o número de edifícios danificados de 32 mil para apenas 5.260.

A Crise Atual e as Consequências da Negligência

Vinte e um anos após a entrega do plano da JICA, a Venezuela enfrenta a dura realidade de um desastre que, em parte, parece ter sido previsto. Não há clareza sobre quantas das medidas propostas foram efetivamente implementadas. Contudo, especialistas ouvidos pela agência DW apontam que a precariedade das construções no país foi um fator decisivo para o elevado número de edifícios destruídos nos terremotos de junho.

Analistas criticam que muitos empreendimentos habitacionais das últimas décadas foram erguidos rapidamente, com fiscalização limitada e pouca transparência. Além disso, a prolongada negligência no cumprimento das normas de construção e os efeitos da crise econômica teriam erodido a capacidade técnica e estrutural do país, tornando-o ainda mais suscetível à devastação sísmica.

Estratégias de Engenharia Detalhadas no Relatório

O estudo da JICA não se limitou a apresentar problemas e custos, mas também detalhou as técnicas de engenharia que poderiam ser empregadas para fortalecer a infraestrutura venezuelana. Para edifícios de concreto armado, foram sugeridas intervenções como a instalação de paredes estruturais, o reforço de colunas e vigas com chapas de aço, aprimoramentos nas fundações e a adoção de sistemas de isolamento de base para absorver a energia dos tremores.

Para as áreas de ocupação informal, conhecidas como 'barrios', o plano propunha soluções de menor custo, mas igualmente eficazes, como a construção de vigas de fundação para aumentar a estabilidade de casas em encostas, o reforço de paredes e obras de contenção para prevenir deslizamentos de terra. É importante notar que o documento sublinhava a necessidade de inspeções e avaliações prévias a qualquer intervenção, e todas as sugestões estariam em conformidade com a legislação venezuelana de 2001.

A trágica ocorrência dos terremotos na Venezuela em junho deste ano, e o consequente rastro de morte e destruição, ecoa de forma alarmante diante do alerta preventivo emitido pelo Japão mais de duas décadas antes. O contraste entre a visão técnica e o cenário atual levanta questões profundas sobre a gestão de riscos e a priorização da segurança pública.

A recuperação do país será um processo longo e desafiador, mas a lição deste episódio sublinha a imperatividade de se investir em infraestrutura resiliente e em planos de contingência, transformando os alertas do passado em ações concretas para proteger vidas no futuro.

Leia mais

PUBLICIDADE