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Terremotos Agravam Crise Política na Venezuela e Revelam Paradoxos na Percepção de Soberania

G1

A Venezuela, recentemente abalada por um duplo terremoto em junho, experimenta uma complexa virada na percepção pública, que oscila entre o apoio a intervenções externas e uma crescente preocupação com a soberania nacional. Uma pesquisa abrangente, realizada pelo instituto IPSE Global em colaboração com um consórcio de universidades do Brasil, Argentina e Espanha, revela como os desastres naturais amplificaram sentimentos contraditórios em relação à política interna e à atuação internacional no país.

O estudo, que envolveu 2.731 entrevistas com residentes e venezuelanos da diáspora em 21 países, foi conduzido em dois momentos cruciais: antes e depois dos sismos. Seus resultados traçam um quadro detalhado de uma nação em busca de um caminho, onde a desaprovação do governo se acentua, mas a aceitação de uma intervenção externa vem acompanhada por um alerta sobre a perda de autonomia.

Dilema da Soberania em um Contexto de Intervenção

A 'Operação Resolução Absoluta', que culminou na captura e prisão de Nicolás Maduro, registrou um aumento significativo na sua aprovação popular, saltando de 65,4% antes dos terremotos para impressionantes 84,8% após os eventos. Contudo, essa aceitação da intervenção americana contrasta com uma percepção alarmante de erosão da soberania venezuelana. A parcela de entrevistados que considera o país menos soberano devido à ação dos Estados Unidos subiu de 64,1% para 80,6% no mesmo período.

Este paradoxo se aprofunda na análise das motivações atribuídas à intervenção de Washington. Uma esmagadora maioria de 68% dos venezuelanos aponta interesses econômicos e energéticos como a principal força motriz por trás das ações do governo americano de Donald Trump, enquanto apenas 21,1% veem na intervenção um objetivo genuíno de transição democrática. Além disso, a noção de perda de autonomia não é recente; mais de 80% dos entrevistados já percebiam uma soberania comprometida antes da intervenção dos EUA, atribuindo-a à influência de nações como Cuba, Irã, Rússia e China.

A Resposta Governamental e a Desconfiança Popular Pós-Terremotos

Os terremotos tiveram um impacto devastador não apenas nas infraestruturas, mas também na imagem da capacidade do Estado venezuelano de gerir crises. Contrariando o fenômeno conhecido como 'reunião em torno da bandeira' na Ciência Política, onde a aprovação governamental tende a aumentar durante desastres naturais, a Venezuela assistiu ao oposto. Leonardo Magalhães, cientista político e diretor-executivo do IPSE Global, enfatiza que a avaliação da gestão governamental foi 'muito mal avaliada' após os tremores.

A pesquisa revela que a população atribuiu o maior mérito nas ações de ajuda e recuperação à própria sociedade civil venezuelana (55,7%), seguida pela comunidade internacional e brigadas estrangeiras (30,5%). O governo nacional recebeu um crédito ínfimo de apenas 5,9%. Essa percepção se reflete na avaliação geral da resposta oficial, com 79% dos entrevistados classificando a atuação governamental no resgate de vítimas como 'muito ruim'. A crise aprofundou uma desaprovação já existente, favorecendo líderes da oposição, notadamente Maria Corina Machado.

Em termos de sentimentos, a esperança entre os venezuelanos caiu de 43,7% para 30,5% após a tragédia. Simultaneamente, a incerteza disparou de 18,7% para 34,2%, e a decepção mais que dobrou, passando de 4,8% para 13,4%, indicando um profundo abalo emocional e psicológico na sociedade.

Cenários Políticos e a Urgência da Transição

A desconfiança política é igualmente acentuada. Uma vasta maioria de 88% dos entrevistados acredita que houve fraude nas eleições presidenciais de 2024, que declararam Maduro vencedor, uma crença reforçada pela ausência de atas eleitorais completas. Adicionalmente, 89% consideram a Venezuela governada pela presidente interina Delcy Rodríguez como uma ditadura, um aumento em relação aos 82,1% registrados antes dos terremotos.

Apesar do ceticismo, a população manifesta uma expectativa de transição política em um futuro próximo. Cerca de 65,6% dos entrevistados esperam um novo governo com eleições em menos de 12 meses, um aumento significativo em comparação aos 48,4% antes dos tremores. No entanto, quando questionados sobre o cenário que realmente acreditam que ocorrerá, as opiniões se dividem: 44,3% preveem uma transição gradual e negociada para a democracia (uma queda em relação aos 52,2% pré-terremoto), 30,3% esperam uma mudança política radical com apoio dos EUA, e 25,4% ainda projetam a continuidade e o fortalecimento do chavismo.

Para Leonardo Magalhães, os dados sublinham um pragmatismo venezuelano em relação a Washington. A população tende a avaliar positivamente qualquer iniciativa que represente uma mudança de governo, um sentimento que se intensificou após os terremotos. No entanto, essa percepção não é desprovida de complexidade, revelando uma nação que, embora deseje transformação, permanece cautelosa quanto aos verdadeiros propósitos por trás das intervenções externas.

Em suma, a Venezuela emerge da pesquisa como um país em efervescência política, onde desastres naturais catalisaram sentimentos de esperança e incerteza. A complexa interação entre a busca por um novo rumo político, a desconfiança nas instituições existentes e a ambivalência em relação à soberania nacional desenha um futuro incerto, mas com um clamor evidente por mudanças e por uma reconstrução que transcenda os escombros dos terremotos para alcançar a própria estrutura do Estado e da sociedade.

Fonte: https://g1.globo.com

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