Pelo segundo ano consecutivo, o Departamento de Estado dos Estados Unidos optou por não emitir um comunicado oficial em homenagem ao Dia da Independência do Brasil, celebrado em 7 de setembro. Essa omissão, que se repete em um momento de notável desgaste nas relações bilaterais, posiciona o Brasil em uma seleta lista de nações que não receberam as felicitações habituais de Washington.
A prática de saudar países em seus “Dias Nacionais” — que podem marcar desde aniversários de independência até celebrações de padroeiras — é um gesto diplomático rotineiro do governo americano. No último ano, compreendido entre setembro de 2025 e setembro de 2026, os EUA estenderam seus parabéns a mais de 180 nações, sublinhando o caráter incomum da ausência de uma mensagem ao Brasil e a outros nove países.
A Prática do Departamento de Estado e as Exceções Notáveis
O levantamento detalhado sobre os comunicados do Departamento de Estado revela que, em apenas 12 meses, a vasta maioria dos países do globo foi agraciada com uma mensagem oficial por suas datas nacionais. Essa rotina diplomática inclui até mesmo nações com as quais os Estados Unidos mantêm relações complexas, como Rússia, China e Venezuela, que receberam felicitações no período analisado.
No entanto, além do Brasil, um grupo restrito de nove países também não foi publicamente congratulado: Afeganistão, Coreia do Norte, Etiópia, Guiné, Irã, Líbia, Santa Lúcia, Síria e Sudão. A lista reflete, em parte, regimes com os quais os EUA mantêm relações tensas ou até mesmo inexistentes, tornando a inclusão do Brasil particularmente sintomática do atual cenário diplomático.
O Histórico das Relações Brasil-EUA e a Mudança de Tom
A última vez que o Brasil recebeu uma felicitação oficial dos EUA pelo Dia da Independência foi em 2024, durante a administração do presidente Joe Biden. Naquela ocasião, o então secretário de Estado, Antony Blinken, assinou uma nota expressando “saudações calorosas” ao povo brasileiro e manifestando o desejo de que os anos vindouros fortalecessem os laços e os valores democráticos compartilhados entre as duas nações.
Contudo, o cenário diplomático sofreu uma alteração brusca com o retorno do presidente Donald Trump à Casa Branca em janeiro de 2025. Desde então, as relações entre Brasil e Estados Unidos passaram por um período de deterioração acentuada, caracterizado pela imposição de tarifas e sanções econômicas por parte do governo norte-americano. Em resposta a questionamentos, o Itamaraty orientou a busca por informações junto ao governo americano, enquanto o Departamento de Estado optou por não comentar a ausência do comunicado.
Nuances Diplomáticas: Além do Silêncio Total
Apesar da ausência de comunicados oficiais do Departamento de Estado para algumas nações, o levantamento revelou uma série de abordagens alternativas, demonstrando a diversidade das estratégias diplomáticas americanas, que vão além das notas públicas diretas.
Engajamento por Embaixadas e Redes Sociais
Para países como Bahamas, Iêmen, Israel e Tunísia, embora não tenha sido localizado um comunicado formal do Departamento de Estado, as embaixadas dos EUA nesses territórios preencheram a lacuna diplomática com posts e mensagens em suas redes sociais, mantendo um nível de reconhecimento público das datas nacionais.
Mensagens Direcionadas e Discretas
O caso de Cuba merece uma menção específica. O secretário Marco Rubio publicou uma nota e um vídeo diretamente direcionados ao povo cubano, reafirmando o “apoio inabalável dos Estados Unidos ao povo cubano em sua busca por liberdade, dignidade e autodeterminação”, contornando a ausência de um reconhecimento formal ao governo. Já em relação à Líbia, mídias locais noticiaram que Trump teria enviado uma carta privada ao presidente Mohamed Menfi felicitando-o pelo aniversário da independência, contudo, essa manifestação não foi publicamente confirmada pelo governo americano.
A Cronologia da Crise Diplomática Recente
A espiral de tensões entre Brasil e Estados Unidos começou a ganhar força em julho do ano passado, quando o presidente Trump impôs tarifas sobre produtos brasileiros importados, justificando a medida como uma resposta a uma suposta “caça às bruxas” contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. Esse evento marcou o início de uma fase turbulenta nas relações bilaterais.
Nos meses seguintes, houve uma breve distensão, com negociações que levaram ao alívio de algumas tarifas e à retirada de sanções contra autoridades brasileiras no final de 2025. A melhora aparente foi pontuada por dois encontros entre os presidentes Lula e Trump, incluindo uma visita de Lula a Washington em 7 de maio de 2026, onde chegou a receber elogios do líder americano.
No entanto, a relação voltou a se deteriorar rapidamente no final de maio, quando os EUA classificaram as facções criminosas brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. Essa decisão foi anunciada dias após o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, ter se reunido com Trump e o secretário Marco Rubio, reacendendo as tensões e adicionando uma nova camada de complexidade ao já delicado cenário diplomático.
Conclusão
O silêncio do Departamento de Estado dos EUA em relação ao Dia da Independência do Brasil, pela segunda vez consecutiva, não é apenas uma formalidade ignorada, mas um potente sinal diplomático. Ele reflete a atual instabilidade e o desgaste das relações entre as duas maiores democracias das Américas, marcadas por decisões políticas e tensões que extrapolam os comunicados protocolares.
A inclusão do Brasil em um grupo seleto de nações sem felicitações oficiais, em contraste com o amplo reconhecimento global, sublinha a profundidade da crise. A situação demonstra que, mesmo em um cenário de interações complexas e pontuais, os gestos simbólicos carregam um peso significativo e moldam a percepção e o futuro da parceria entre os dois países.
Fonte: https://g1.globo.com