A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) adotou medidas disciplinares e estratégicas em resposta a um vazamento de gás ocorrido em 4 de junho no bairro da República, região central da capital paulista. Após uma apuração interna detalhada, a empresa decidiu pela demissão de dois funcionários e a suspensão de outros sete envolvidos no incidente. Essas ações são parte de um pacote mais amplo de mudanças que inclui uma significativa reformulação na estrutura de gestão da companhia, visando reforçar a segurança e a eficiência operacional.
Reformulação Estrutural e Compromisso com a Segurança Operacional
Em um movimento para aprimorar seus protocolos e práticas, a Sabesp anunciou a criação de uma Diretoria de Segurança Operacional, uma nova instância dedicada exclusivamente à prevenção de acidentes e à gestão de riscos em suas atividades. Complementarmente, a empresa unificou as áreas de Engenharia e Operações, buscando maior sinergia entre o planejamento e a execução dos projetos. A área de Clientes e Tecnologia, por sua vez, foi desmembrada em duas diretorias distintas, com o objetivo de otimizar o atendimento ao público e o desenvolvimento tecnológico. A Sabesp reiterou seu compromisso com um “programa de tolerância zero com incidentes nas obras”, enfatizando a necessidade de minimizar os impactos de suas intervenções na rotina das cidades.
O plano de ação da companhia é estruturado em três pilares fundamentais: o aperfeiçoamento contínuo dos procedimentos de engenharia e segurança; a intensificação do monitoramento em todas as frentes de trabalho; e a expansão do programa de treinamento, capacitação e certificação de seus colaboradores. Para dar suporte a essas iniciativas, a Sabesp planeja triplicar o número de fiscais em campo, passando de 200 para 600 profissionais, além de ampliar significativamente o uso de tecnologia avançada no monitoramento de suas obras, visando maior precisão e controle.
O Alerta da Tragédia em Jaguaré e a Voz dos Sindicatos
Os recentes incidentes na capital paulista ganham um contorno mais grave ao serem contextualizados com um evento similar ocorrido no mês anterior. Em maio, uma explosão na Comunidade Nossa Senhora das Virtudes II, no bairro do Jaguaré, zona oeste de São Paulo, resultou na morte de duas pessoas e feriu outras duas, além de ter levado à interdição inicial de 46 residências. Moradores da região haviam relatado sentir um forte cheiro de gás horas antes da ocorrência, que também foi associada a uma obra da Sabesp. A Polícia Científica concluiu o laudo sobre a explosão, fornecendo dados cruciais para a compreensão do ocorrido.
Em face desses eventos, o Sindicato dos Engenheiros no Estado de São Paulo (Seesp) manifestou publicamente seu pesar e criticou veementemente o que descreveu como um “desmonte técnico do saneamento”. A entidade exigiu uma apuração rigorosa dos fatos e uma “revisão urgente de políticas de gestão que colocam em risco a segurança dos trabalhadores, a integridade das operações e o interesse público”. O Seesp argumentou que os acidentes “lançam luz sobre um processo preocupante de desestruturação técnica e operacional” na Sabesp, que seria, em sua visão, consequência direta da privatização, da redução acelerada de quadros próprios e da perda de profissionais experientes, essenciais para a transmissão de conhecimento acumulado ao longo de décadas.
Implicações da Privatização na Segurança e Gestão
A privatização da Sabesp, a maior companhia de saneamento do país, foi formalmente concluída em 23 de julho de 2024, após um longo e controverso processo que envolveu pedidos de Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) e acusações de desmonte por parte das representações dos trabalhadores. O Sindicato dos Engenheiros reiterou a complexidade intrínseca da atividade de saneamento básico, cuja operação depende não apenas de equipamentos modernos, mas fundamentalmente de uma mão de obra altamente qualificada e experiente.
O Seesp criticou a priorização exclusiva de “indicadores financeiros de curto prazo, com enxugamento de equipes e substituição de trabalhadores experientes por estruturas terceirizadas e precarizadas”, alertando que essa abordagem compromete o “patrimônio técnico indispensável à segurança”. O Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente do Estado de São Paulo (Sintaema), que participou ativamente das audiências públicas que precederam a venda da Sabesp, havia alertado sobre os riscos de aumento de acidentes devido à redução de equipes de manutenção e resposta rápida após a privatização. A entidade previu que a perda do controle público resultaria em menor influência do governo em decisões estratégicas, uma preocupação que ganha relevância diante dos recentes incidentes.
Os recentes vazamentos e explosões, somados à reestruturação interna e às preocupações persistentes levantadas pelos sindicatos, posicionam a Sabesp em um momento de intenso escrutínio público e corporativo. Enquanto a empresa busca reafirmar seu compromisso com a segurança e aprimorar seus processos operacionais sob uma nova gestão, as entidades representativas dos trabalhadores continuam a questionar o impacto da privatização na qualidade dos serviços e na integridade das operações. A capacidade da Sabesp de conciliar as novas diretrizes corporativas com a manutenção de altos padrões de segurança e a valorização de sua expertise técnica será determinante para sua atuação futura e para a confiança da população.