A sugestão do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, de que até 50 mil soldados norte-coreanos teriam sido mobilizados para combater ao lado da Rússia acende um alerta sobre a crescente dificuldade de Moscou em manter suas forças na Ucrânia. A avaliação de Marie Mendras, professora de Relações Internacionais na Sciences Po de Paris, corrobora essa visão, apontando que o recrutamento maciço de combatentes estrangeiros é um sintoma claro da escassez de efetivos russos. Este cenário, somado a um tratado de parceria estratégica assinado entre o Kremlin e Pyongyang, desenha um quadro de aliança militar cada vez mais profunda, impulsionada pelas necessidades bélicas russas.
Escalada da Parceria Militar e a Realidade no Campo de Batalha
A estimativa de Zelensky, que supera consideravelmente os 30 mil soldados norte-coreanos mencionados em julho, revela a amplitude dos desafios enfrentados pelo exército russo. Mendras observa que a dependência de tais contingentes expõe os entraves que impedem um avanço significativo na linha de frente. Para sustentar novas ofensivas, o Kremlin precisaria mobilizar centenas de milhares de homens, uma capacidade que, atualmente, o exército russo não possui, comprometendo a continuidade da guerra territorial nos moldes desejados.
A base para essa colaboração militar foi cimentada em junho de 2024, quando os presidentes Vladimir Putin e Kim Jong-un assinaram um tratado de parceria estratégica, que inclui uma cláusula de assistência mútua em caso de agressão externa. Essa não é a primeira vez que Pyongyang apoia Moscou; em um precedente de dois anos atrás, a Coreia do Norte já havia enviado cerca de 14 mil soldados para a região russa de Kursk, desempenhando um papel crucial na contenção de uma significativa incursão ucraniana. Contudo, o contexto atual é mais crítico para a Rússia, com estimativas de 1,5 milhão de soldados russos mortos, feridos ou incapacitados, resultando na estagnação de avanços no leste e sudeste da Ucrânia e em recuos pontuais, forçando as tropas russas a priorizar a manutenção das posições.
O Desafio Crônico do Recrutamento Interno Russo
A análise da professora Mendras aprofunda-se nas dificuldades enfrentadas pela Rússia para recrutar novos soldados internamente. Embora uma mobilização oficial lançada em setembro de 2022 permita uma convocação permanente, os métodos empregados pelo governo russo são controversos. Relatos indicam que as chamadas 'operações especiais' de recrutamento frequentemente recorrem à coerção, ameaçando famílias para forçar a adesão de homens ao combate. A eficácia desses recrutas, que muitas vezes não possuem treinamento adequado e demonstram pouca vontade de lutar na linha de frente, é questionada, minando a qualidade das forças militares.
Adicionalmente, o exército russo lida com sérios problemas de gestão e controle nos territórios ocupados, como a Crimeia e o leste da Ucrânia. As administrações dessas regiões são flageladas pela corrupção, e o pessoal militar local é frequentemente desviado para as frentes de combate, em vez de se dedicar à administração civil. Essa disfunção leva parte da população a tentar fugir das zonas sob controle russo, agravando a escassez de recursos humanos e administrativos necessários para consolidar a ocupação.
A Nova Face da Guerra: Mísseis e o Apoio Norte-Coreano
Diante desses desafios e da estagnação no avanço terrestre, Mendras prevê que o futuro da guerra na Ucrânia será marcado por uma intensificação das trocas de mísseis. Kiev enfrenta uma carência crítica de sistemas avançados de defesa aérea, uma vulnerabilidade que Moscou parece determinada a explorar, aumentando o número de lançamentos de projéteis balísticos, que são particularmente difíceis de interceptar.
Nesta nova etapa do conflito, o apoio da Coreia do Norte torna-se ainda mais estratégico para a Rússia. Um relatório recente dos serviços de inteligência militar ucranianos, divulgado pela agência Reuters, aponta que uma unidade de mísseis norte-coreana iniciou seu deslocamento para o oeste da Rússia, potencialmente equipada com 120 mísseis balísticos e seis lançadores, destinados a atingir a Ucrânia. Além disso, fontes ucranianas e independentes sugerem que Pyongyang teria fornecido a Moscou milhões de projéteis de artilharia e morteiros, mísseis balísticos de longo alcance e sistemas de lançadores múltiplos de foguetes. Embora nem o regime norte-coreano nem a Rússia tenham confirmado oficialmente essas informações, a crescente evidência de tais transferências destaca a profundidade da assistência militar e a reconfiguração das dinâmicas do conflito.
Em suma, a dependência russa de combatentes e armamentos norte-coreanos sublinha uma crise fundamental de recrutamento e efetividade militar interna. A intensificação dessa aliança estratégica, impulsionada tanto pela estagnação no campo de batalha quanto pela necessidade de métodos de combate alternativos, como a guerra de mísseis, molda um cenário de conflito prolongado e com implicações geopolíticas crescentes.