Um panorama recente sobre tecnologia da informação e comunicação no Brasil revela uma mudança significativa na posse de telefones celulares e no acesso à internet, especialmente entre as faixas etárias mais jovens. Dados do módulo temático da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que, pela primeira vez, a proporção de crianças de 10 a 13 anos com celular apresentou queda, impulsionada principalmente pela crescente preocupação dos responsáveis com privacidade e segurança digital.
Segurança e Privacidade: Principal Fator para o Recuo entre Crianças
Em 2023, a posse de celular entre crianças de 10 a 13 anos registrou um declínio inédito, marcando 55,2% dessa faixa etária com o aparelho. Este percentual representa uma queda de 1,5 ponto percentual em comparação com 2022, sendo a primeira retração desde o início da série histórica da pesquisa em 2016. A principal justificativa para essa tendência, segundo o levantamento, reside na preocupação com a privacidade e a segurança, mencionada por 32% dos responsáveis, um aumento expressivo de 7,8 pontos percentuais em relação a 2022 e quase o dobro da proporção observada em 2021.
Essa mudança de prioridades é notável quando comparada a anos anteriores. Em 2022, por exemplo, o custo elevado do aparelho, a percepção de falta de necessidade ou o uso de dispositivos de terceiros eram os motivos mais citados para a ausência de um celular próprio, com a segurança e a privacidade figurando apenas em quarto lugar na lista de razões.
Contrastes na Adoção Tecnológica: Jovens versus Demais Grupos
O grupo de 10 a 13 anos foi o único a registrar diminuição na posse de celular em 2023. Em outras faixas etárias, a tendência de crescimento se manteve, elevando o uso de celulares para 89,8% da população geral. O analista do IBGE, Gustavo Fontes, destaca que a maior conscientização sobre a exposição de crianças em redes sociais e as restrições ao uso de celulares em ambientes escolares em 2023 contribuíram para esse cenário específico.
Adicionalmente, houve uma ligeira queda no acesso à internet para essa mesma faixa etária, independentemente do dispositivo utilizado, passando de 84,9% para 84,4%. Embora a falta de necessidade ainda seja o motivo principal para a desconexão desse grupo, a preocupação com privacidade e segurança surge como o segundo fator mais relevante. Enquanto os adolescentes de 14 a 19 anos mostraram estabilidade no acesso, a população geral viu o uso da internet subir de 89,2% para 90,5%.
Avanço da Digitalização entre Idosos: Inclusão Crescente
Em contraste com a cautela parental em relação aos mais jovens, a pesquisa aponta um notável avanço da tecnologia entre os idosos. Em 2023, 74,5% dos brasileiros com mais de 60 anos utilizavam a internet, um salto de 4,4 pontos percentuais em relação a 2022 e uma ascensão de mais de 29 pontos percentuais desde 2019. A posse de celular nessa faixa etária também cresceu, de 78,3% em 2022 para 80,3% em 2023.
Para os idosos que ainda não estão conectados, a principal barreira identificada é a falta de conhecimento ou a dificuldade em utilizar a internet e os dispositivos móveis. Gustavo Fontes ressalta a crescente inserção da internet no cotidiano e a digitalização de diversos serviços como um estímulo significativo para a busca por essa inclusão digital na terceira idade.
Internet: Um Pilar Fundamental para o Dia a Dia dos Brasileiros
A pesquisa também evidencia a profunda integração da internet na vida diária dos brasileiros. Em 2023, 74,2% da população acessava bancos ou instituições financeiras online, representando um aumento de 14,4 pontos percentuais desde 2022. O acesso a serviços públicos pela rede também cresceu de 33,2% para 41,1% no mesmo período.
Pela primeira vez em 2023, mais da metade da população conectada (52,7%, contra 47,9% anteriormente) declarou realizar compras ou encomendar bens e serviços pela internet. Entre as 12 funcionalidades pesquisadas, as mais frequentes são conversar por chamadas de voz ou vídeo (95,3%), enviar mensagens de texto, voz e imagens por aplicativos (90,2%), e assistir a vídeos, programas, filmes e séries (89,3%), consolidando a internet como ferramenta essencial de comunicação e entretenimento.
Conclusão: Digitalização em Múltiplas Facetas
O levantamento do IBGE ilustra um cenário dinâmico e multifacetado da digitalização no Brasil. Enquanto a inclusão digital avança notavelmente entre os idosos e a internet se consolida como um pilar indispensável para serviços e comunicação em todas as idades, a relação das crianças com a tecnologia está passando por uma reavaliação. A preocupação com a segurança e privacidade emerge como um fator decisivo, moldando as decisões parentais e indicando uma crescente conscientização sobre os desafios do ambiente digital para os mais jovens. Este panorama sugere que, à medida que a tecnologia se torna ubíqua, a reflexão sobre seu uso responsável e seguro será cada vez mais crucial.