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Orquestra Criança Cidadã Celebra Duas Décadas Transformando Vidas no Recife: Da Periferia aos Palcos Globais

© ORQUESTRA CRIANCA CIDADA

No palco neoclássico do centenário Teatro de Santa Isabel, no Recife, a celebração dos 20 anos da Orquestra Criança Cidadã reverberou com a emoção de histórias que transcenderam a adversidade. Entre a plateia, Ivone dos Santos, de 57 anos, acompanhava o concerto com o coração transbordando de orgulho e memórias. Lá, seu filho, o violista Isaías Tavares, de 33, era a personificação de uma jornada de superação, demonstrando como a música pode ser um vetor de transformação, tirando jovens da periferia para inseri-los no cenário musical mundial.

As Raízes da Resiliência: O Coque e a Luta de uma Mãe

A trajetória de Isaías e sua família é marcada por desafios emblemáticos. Moradores do Coque, um bairro do Recife que, à época, registrava um dos menores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) da capital pernambucana, enfrentaram privações extremas. Em 2009, uma forte tempestade destruiu a precária casa de tábuas em que viviam, um evento que Ivone, mãe solo e empregada doméstica, recorda como um dos mais dolorosos de sua vida. Essa experiência de vulnerabilidade acentuou a necessidade de apoio e o anseio por um futuro diferente para seus filhos.

Orquestra Criança Cidadã: Um Projeto de Vida e Música

Fundada em 25 de julho de 2006, a Orquestra Criança Cidadã rapidamente se tornou um pilar na vida de Isaías. O projeto social não se limitou à educação musical; estendeu sua ação para amparar a família em um momento crítico. Por meio de doações, a iniciativa conseguiu recursos para erguer uma nova residência de alvenaria para Ivone e seus filhos, assumindo inclusive o custo do aluguel provisório. Além do teto, a participação de Isaías no projeto, que tinha sede em um quartel do Exército próximo ao Coque, garantiu-lhe o acesso a três refeições diárias – um benefício essencial que complementava a formação musical e o desenvolvimento humano sob a regência do maestro potiguar Cussy de Almeida.

Do Ensaio com Galho de Goiabeira à Viola Sinfônica

A paixão de Isaías pela viola brotou cedo, mesmo com a falta de recursos. Ele recorda ensaiar os movimentos do arco com um pedaço de galho de goiabeira e simular o instrumento com uma caixa de papelão. Sua mãe, Ivone, que precisou deixar os estudos aos 11 anos para trabalhar e sustentar a família, foi a principal força motriz por trás de sua perseverança. Aos 18 anos, Isaías conquistou uma vaga para estudar no renomado conservatório superior de Salzburgo, na Áustria. Essa oportunidade o levou a tocar na Orquestra Sinfônica de Wels e a viajar pela Europa, abrindo um horizonte de possibilidades que ele jamais imaginara. Hoje, Isaías Tavares é o violista principal da Orquestra Sinfônica de Goiânia, onde atua há 15 anos, um posto que ele atribui em grande parte à coragem e ousadia que aprendeu com sua mãe.

Um Legado de Conquistas: Inspirando Novas Gerações

O sucesso de Isaías é um reflexo do impacto mais amplo da Orquestra Criança Cidadã. Ao retornar ao Brasil, ele incentivou dois colegas do projeto a fazerem o concurso para a Orquestra Sinfônica de Goiânia; os três foram aprovados em primeiro lugar em seus respectivos instrumentos. Um desses talentos é Antonino Tertuliano, contrabaixista que hoje se destaca como o único latino-americano entre os 100 integrantes da prestigiada Orquestra Filarmônica de Duisburg, na Alemanha. Antonino, que teve sua primeira experiência no Santa Isabel aos 14 anos, personifica a capacidade do projeto em nutrir talentos desde a infância e pavimentar caminhos para o reconhecimento internacional, mostrando que os jovens do Coque podem, de fato, alcançar os maiores palcos do mundo.

Os concertos comemorativos dos 20 anos da Orquestra Criança Cidadã não foram apenas uma celebração musical, mas um poderoso lembrete do potencial transformador da arte e da educação. Histórias como a de Isaías e Antonino inspiram as novas gerações que hoje ingressam no projeto, solidificando o legado de uma iniciativa que continua a provar que a persistência, o apoio e a oportunidade podem reescrever destinos, elevando vozes e talentos da periferia para o mundo.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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