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Morre Sheikh Hamad bin Khalifa Al-Thani, o Ex-Emir que Modernizou o Catar

G1

O mundo árabe e a comunidade internacional lamentam o falecimento de Sheikh Hamad bin Khalifa Al-Thani, ex-emir do Catar, aos 74 anos. A informação foi confirmada neste domingo (12) pelo Amiri Diwan, o principal órgão governamental do emirado. A causa da morte não foi detalhada. Conhecido por sua liderança transformadora, Sheikh Hamad foi o arquiteto da modernização acelerada do Catar, impulsionando o pequeno estado desértico a uma posição de destaque no cenário global em menos de duas décadas.

Sua gestão, iniciada em 1995, redefiniu as aspirações e a projeção do Catar, culminando em uma transição de poder inovadora e sem precedentes na região. Seu legado é marcado por profundas reformas econômicas, diplomáticas e sociais que moldaram a nação que hoje é herdada por seu filho, o atual emir Sheikh Tamim bin Hamad Al-Thani.

Uma Era de Transformação e Ruptura Histórica

Sheikh Hamad bin Khalifa Al-Thani ascendeu ao poder em 1995, protagonizando um golpe sem derramamento de sangue que depôs seu próprio pai. Contudo, foi sua decisão de abdicar em 2013, transferindo o comando para seu filho, que verdadeiramente rompeu com as tradições monárquicas do Golfo. Em seu discurso de renúncia, ele articulou a visão de ceder espaço a uma nova geração, infundida com “ideias inovadoras e energias ativas”, demonstrando um perfil progressista incomum para um líder da região.

Essa atitude visionária foi a base para um dos períodos mais dinâmicos da história do Catar, onde o então emir de 44 anos, considerado menos distante da população que outros líderes árabes, forjou um caminho de desenvolvimento sem precedentes. Sua liderança audaciosa estabeleceu as bases para a prosperidade e a projeção internacional do emirado.

A Arquitetura da Prosperidade e da Influência Global

Sob a égide de Sheikh Hamad, o Catar empreendeu uma estratégia ambiciosa de desenvolvimento de sua infraestrutura de gás natural liquefeito (GNL). Essa iniciativa transformou o país em um dos maiores exportadores mundiais de combustível, capitalizando suas vastas reservas e construindo a fundação de sua riqueza espetacular. A diversificação de investimentos e a modernização econômica foram pilares que alavancaram o emirado a um patamar financeiro global.

Além do sucesso econômico, sua visão se estendeu à diplomacia pública e à projeção cultural. Ele foi o idealizador da rede de televisão Al Jazeera, um veículo que não apenas ampliou a influência do Catar na política árabe, mas também projetou o país muito além das fronteiras do Golfo. A conquista do direito de sediar a Copa do Mundo de 2022 é outro marco de sua gestão, solidificando a presença do Catar no cenário internacional e desencadeando uma década de obras de infraestrutura que remodelaram profundamente a capital, Doha.

Catar como Ator Diplomático Chave no Cenário Internacional

A política externa de Sheikh Hamad foi decisiva para consolidar o Catar como um mediador respeitado em conflitos globais. O país desempenhou papéis cruciais em negociações delicadas em regiões como Líbano, Iêmen e Darfur. Essa estratégia diplomática permitiu ao Catar manter relações complexas e estratégicas, dialogando simultaneamente com os Estados Unidos – que abrigam o Comando Central das Forças Armadas americanas no emirado – e com o Irã, além de grupos alinhados a Teerã. Essa habilidade de navegação política abriu caminho para a atual participação do Catar em negociações sensíveis, como as entre Estados Unidos e Irã, e nos esforços para buscar uma solução para a guerra na Faixa de Gaza.

Desafios e Controvérsias: O Período da Primavera Árabe

Durante as revoltas da Primavera Árabe, em 2011, o Catar sob a liderança de Sheikh Hamad adotou uma postura notável e, por vezes, controversa. O país ofereceu apoio a movimentos revolucionários e a grupos islâmicos em diversas nações da região. Enquanto Doha defendia que seu suporte era em prol das demandas populares por mudanças políticas, críticos acusavam o emirado de favorecer seletivamente grupos alinhados a seus próprios interesses, em particular organizações ligadas à Irmandade Muçulmana.

Essa estratégia diplomática gerou atritos significativos com outras monarquias do Golfo, como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, que percebiam muitos desses movimentos como ameaças à estabilidade regional e à sobrevivência dos regimes monárquicos. A atuação do Catar na Primavera Árabe, embora tenha ampliado sua influência regional, também aprofundou as tensões com seus vizinhos, deixando um legado complexo que ainda ressoa na política do Golfo.

Dinâmicas de Sucessão e Parcerias Estratégicas

A abdicação de Sheikh Hamad foi um movimento cuidadosamente planejado para assegurar uma transição de poder harmoniosa, visando mitigar disputas internas na família governante – uma prática que contrasta com a história de intrigas palacianas da região. Vale lembrar que o próprio Sheikh Hamad havia sobrevivido a uma tentativa de contragolpe um ano após sua ascensão, um evento atribuído a seu pai, que também havia chegado ao poder de forma semelhante em 1972.

Crucial para o processo de modernização do Catar foi a parceria com uma de suas esposas, Sheikha Moza bint Nasser. Com uma presença pública incomum para a esposa de um governante do Golfo, Sheikha Moza liderou iniciativas transformadoras nas áreas de educação, pesquisa e desenvolvimento social. Sua influência cresceu em paralelo aos esforços do emir para reposicionar o país, tanto internamente quanto no palco internacional, solidificando um modelo de governança que integrava reformas políticas e econômicas com avanços sociais e culturais.

O Legado Duradouro de um Líder Visionário

O falecimento de Sheikh Hamad bin Khalifa Al-Thani marca o fim de uma era para o Catar. Sua liderança, caracterizada por um misto de audácia e pragmatismo, transformou um pequeno emirado desértico em um ator global de influência econômica, política e cultural. Desde a exploração estratégica de suas reservas de gás até a criação de uma rede de mídia de impacto mundial e a hospedagem de eventos de prestígio, ele pavimentou o caminho para a prosperidade e a relevância internacional do Catar.

Seu perfil de governante, que demonstrava uma aproximação singular com a população – como ao frequentar seu café favorito no souq de Doha –, juntamente com sua capacidade de romper com tradições arraigadas para impulsionar o futuro, garante a Sheikh Hamad um lugar proeminente na história moderna do Oriente Médio. O legado de sua visão e coragem continuará a ressoar nas políticas e no desenvolvimento do Catar por muitas gerações.

Fonte: https://g1.globo.com

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