Em meio à desolação causada por uma devastadora avalanche e enchentes no Nepal, uma história de resiliência e um reencontro emocionante trouxeram um raio de esperança. Matti Maya Tamang, de 28 anos, finalmente abraçou seu filho Zoyal Ghale, de apenas oito anos, nesta sexta-feira (28). O menino havia sido resgatado sozinho por helicóptero, com ferimentos e uma perna quebrada, depois de sobreviver à catástrofe correndo para uma floresta e escalando árvores.
A jornada de Matti até o reencontro foi marcada por um desespero indescritível, pois temia que ambos os seus filhos tivessem perecido na calamidade que assolou o norte do país. A recuperação de Zoyal, e posteriormente a do filho mais novo, tornaram-se símbolos de esperança para as centenas de famílias que buscam por entes queridos.
A Coragem de um Pequeno Sobrevivente
Zoyal Ghale estava na escola na manhã de quarta-feira (26) quando a avalanche e as enchentes repentinas atingiram a região. O menino relatou que, de repente, "ficou tudo muito, muito escuro". Em um ato instintivo de sobrevivência, ele correu para uma floresta próxima com um amigo e, para escapar da fúria da água e dos destroços, escalou árvores. Apesar da situação aterradora, questionado sobre se sentiu medo, Zoyal balançou a cabeça em negação.
Resgatado de helicóptero, Zoyal foi levado para o Hospital Chakra Dev, no distrito de Nuwakot, com uma perna direita quebrada e cortes no rosto. Curiosamente, ele segurava duas notas de dez rúpias, que, segundo as autoridades, foram dadas a ele por policiais para acalmá-lo e convencê-lo a ir para o hospital. Posteriormente, foi transferido para Katmandu para receber tratamento médico mais intensivo.
A Angústia Materna e a Reviravolta Inesperada
Enquanto Zoyal era levado para o hospital, sua mãe, Matti Maya Tamang, vivia um pesadelo. Em casa, tecendo, ela ouviu um barulho que parecia um terremoto. Rapidamente, a paisagem ao redor de sua residência se transformou em um cenário de destruição. "Eu podia ver que tudo estava sendo levado pela correnteza. Achei que meus filhos também estivessem sendo levados", descreveu.
Matti tentou desesperadamente chegar à escola dos filhos, mas o caminho, que normalmente levava cerca de 15 a 20 minutos de carro, estava irreconhecível; o prédio escolar havia sido destruído. "Não dava para entender onde ficava a escola, onde ficava o mercado. Havia apenas água, pedras e lama por toda parte", lamentou. Ela passou dias procurando por Zoyal e seu irmão mais novo em abrigos e pontos de coleta, com a alma dilacerada. "Já tinha aceitado que meus dois filhos não estavam mais entre nós. Tudo o que eu podia fazer era chorar. Não conseguia me controlar de jeito nenhum", disse Matti à Reuters.
A esperança surgiu na quinta-feira (27), após várias tentativas frustradas. Matti conseguiu o telefone da jornalista da Reuters, Sahana Bajracharya. Horas antes, Bajracharya e sua equipe haviam conhecido Zoyal no hospital de Nuwakot, onde o menino, na esperança de ser reconhecido, concordou em ser filmado. A jornalista havia deixado seu número no hospital, e a ligação de Matti foi o elo crucial. Ao ouvir que Zoyal estava vivo e em Katmandu, Matti mal podia acreditar: "Quando você me disse que sabia onde Zoyal estava, não parecia verdade. Eu já tinha desistido de pensar que os encontraria."
O Reencontro e a Esperança Renovada
A notícia da sobrevivência de Zoyal foi um bálsamo para Matti. A confirmação de que seu filho mais velho estava a salvo impulsionou sua busca pelo caçula, que também foi encontrado com vida. O reencontro com Zoyal, um dia depois de ter perdido todas as esperanças, foi um momento de profunda emoção. "Depois que encontrei o mais velho, senti que minha vida tinha voltado", expressou Matti, resumindo a magnitude daquele momento para uma mãe que havia se preparado para o pior.
A Devastação no Nepal e os Esforços de Ajuda Humanitária
A tragédia que quase separou Matti e Zoyal foi desencadeada pelo desabamento de parte de uma geleira próxima ao pico do Langtang Lirung na quarta-feira (26). O gelo e as rochas desceram pela montanha, provocando um enorme deslizamento de terra que rapidamente se transformou em enchentes devastadoras. Em questão de minutos, comunidades inteiras foram arrasadas, e a correnteza levou água e detritos por todo o norte do Nepal, atingindo até o Tibete.
Os números da catástrofe são alarmantes: pelo menos 580 pessoas morreram e cerca de 2.500 estão desaparecidas no Nepal e no Tibete. A situação é particularmente crítica para as crianças; o Unicef informou que cerca de 17 mil crianças foram afetadas pelas enchentes nos distritos de Rasuwa, Nuwakot e Dhading, ao norte de Katmandu. A agência da ONU para a infância está trabalhando em conjunto com o governo nepalês para identificar, registrar e reunir as crianças separadas de suas famílias, oferecendo suporte crucial neste momento de crise.
Um Símbolo de Resiliência em Tempos de Adversidade
A história de Zoyal Ghale e sua família é um testemunho da extraordinária capacidade humana de resiliência diante da adversidade mais extrema. Enquanto o Nepal e o Tibete continuam a lidar com as consequências devastadoras da avalanche e das enchentes, o reencontro de Matti e Zoyal serve como um poderoso lembrete de que, mesmo nas circunstâncias mais sombrias, a esperança, a determinação e a solidariedade humana podem prevalecer, trazendo luz para aqueles que enfrentam a dor da perda e da incerteza.
Fonte: https://g1.globo.com