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Mãe de Kathlen Romeu Clama por Justiça e Apoio Social às Vésperas de Julgamento Crucial

© Rovena Rosa/Agência Brasil

Há exatos seis anos, a comerciária Jacklline de Oliveira, de 45 anos, e o professor de educação física Luciano Gonçalves, de 49, celebravam o 24º aniversário de sua única filha, Kathlen Romeu. A festa, um momento de pura alegria e juventude no terraço da avó, no Lins de Vasconcelos, Zona Norte do Rio de Janeiro, permanece como uma memória vívida e dolorosa. Neste sábado, Kathlen completaria 30 anos, uma data que, ao invés de comemoração, reforça a chaga da perda e a espera por justiça, cinco anos após um crime que ceifou não apenas sua vida, mas também a de seu bebê ainda não nascido.

O Trajeto Interrompido de Uma Vida Promissora

Kathlen era descrita por sua mãe como uma jovem de espírito intenso e amoroso, movida por grandes sonhos. Desde os 15 anos, ela demonstrava seu empreendedorismo customizando e vendendo roupas, e almejava uma carreira como modelo. Com um futuro brilhante pela frente, a jovem já havia financiado, ainda na planta, seu primeiro apartamento e vivia a expectativa de se tornar mãe pela primeira vez. Grávida de quatro meses, sua vida foi tragicamente interrompida em 8 de junho de 2021, quando visitava a avó no mesmo local de sua última festa de aniversário. Um tiro fatal, em meio a uma ação policial, pôs fim aos seus planos e aos de seu filho, que também não sobreviveu.

O impacto dessa perda é incalculável para seus pais, que descrevem a transição de um dos melhores momentos de suas vidas para um abismo de dor e indignação. Jacklline expressa a sensação de um 'tiro de fuzil' diário, acusando o Estado de perpetuar o sofrimento de sua família desde o fatídico dia. A versão policial de que os disparos tinham como alvo 'bandidos' nunca foi comprovada, e a denúncia do Ministério Público do Rio de Janeiro aponta para o envolvimento direto de policiais militares na direção dos tiros que atingiram Kathlen e sua avó, Sayonara de Oliveira, enquanto caminhavam em uma rua movimentada.

A Batalha Legal por Justiça e Responsabilização

Desde a morte de Kathlen e seu bebê, familiares e amigos se uniram em uma incansável mobilização por respostas. Agora, cinco anos após o crime, a luta atinge um marco crucial: os policiais militares Rodrigo Correia de Frias e Marcos Felipe da Silva Salviano serão julgados pelo assassinato em 26 de novembro, às 10h, no Tribunal do Júri. Embora tenham sido inicialmente absolvidos da acusação de fraude processual na Justiça Militar, a promotoria recorreu e obteve a condenação pela 6ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Atualmente, os agentes respondem ao processo em liberdade e encontram-se afastados de suas funções na corporação.

À espera do veredito da Justiça, Jacklline e Luciano não cobram apenas a punição dos envolvidos, mas também uma postura firme da sociedade civil. Eles exigem um engajamento coletivo contra a letalidade policial e em defesa de uma política de segurança pública que, acima de tudo, preserve vidas. Jacklline enfatiza que a solidariedade e indignação demonstradas pela sociedade em 2021 devem se manter vivas no dia do julgamento. Para ela, a ausência de condenação dos policiais seria equivalente a uma 'nova morte' de Kathlen e seu bebê pelas mãos da própria sociedade.

O Clamor da Família e o Contexto da Letalidade Policial

A trajetória do caso Kathlen Romeu, embora tenha chegado ao Tribunal do Júri, contrasta com a realidade de impunidade que permeia a letalidade policial no Rio de Janeiro. Dados de 2021 da Rede de Observatórios da Segurança do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) revelam que apenas uma pequena parcela das mortes cometidas por policiais resulta em denúncias formais, e uma fração ainda menor culmina em condenações. A família de Kathlen enfrentou desafios significativos, inclusive acionando a Corregedoria do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro em 2022, após alegar que o promotor responsável pela investigação na época sugeriu o arquivamento do processo e a busca por 'justiça divina'. Embora um procedimento administrativo disciplinar (PAD) tenha sido aberto, o processo acabou arquivado.

A dor incessante e a complexidade do processo levaram Jacklline a buscar terapia para processar o luto, enquanto Luciano, seu marido, decidiu cursar psicologia, encontrando no terceiro ano da faculdade um caminho para compreender e lidar com a experiência traumática. A imagem de Kathlen em seu ensaio de grávida, eternizada em um pôster na sala de casa, ao lado de pequenas esculturas de bebês, simboliza a memória viva e a incessante busca por um desfecho justo que possa, em alguma medida, aliviar a ferida aberta da família.

O próximo julgamento, portanto, transcende a esfera individual, tornando-se um símbolo da luta por responsabilização e um teste para o sistema de justiça brasileiro diante da persistente questão da violência policial. A comunidade, que acompanhou com consternação a tragédia de Kathlen Romeu e seu filho, é agora chamada a se posicionar em defesa de uma sociedade mais justa e segura para todos.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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