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Irene Santos (1947-2024): O Olhar Que Resgatou a Memória Negra de Porto Alegre

Irene Figueiredo Santos. Foto: Grupo Angelus/Divulgação

Porto Alegre e o Brasil perderam, nesta terça-feira (27), uma de suas mais importantes vozes na defesa e celebração da memória afro-brasileira. Aos 78 anos, faleceu Irene de Figueiredo Santos, fotógrafa, pesquisadora e historiadora cuja trajetória foi integralmente dedicada à imagem, à investigação histórica e à valorização incansável da cultura e das narrativas negras no cenário gaúcho e nacional.

Uma Carreira Multidisciplinar a Serviço da Identidade

Nascida na capital gaúcha em 1947, Irene Santos construiu uma ponte única entre sua formação acadêmica em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e sua paixão autodidata pela fotografia. Sua abordagem se tornou uma linguagem singular, onde a câmera não era apenas um instrumento de registro, mas uma ferramenta poderosa de pesquisa, capaz de valorizar pessoas, expressões culturais e a memória coletiva de comunidades historicamente marginalizadas. Além de sua primorosa fotografia, Irene transitou com maestria por áreas como as artes cênicas, a música e as artes visuais, demonstrando a amplitude de seu talento e a profundidade de seu compromisso.

O Poderoso Legado de "Negro em Preto e Branco"

Entre suas diversas obras, o livro <b>"Negro em Preto e Branco – História Fotográfica da População Negra de Porto Alegre"</b>, publicado em 2005, destaca-se como um marco indelével. A obra é um meticuloso esforço de reunir fotografias e relatos que, juntos, reconstroem a fundamental presença de indivíduos negros na formação social e cultural de Porto Alegre, resgatando trajetórias e experiências de famílias que, por muito tempo, foram relegadas ao esquecimento pela historiografia oficial.

O impacto e a relevância de "Negro em Preto e Branco" foram reconhecidos em 2006 com o prestigiado Prêmio Açorianos de Literatura, na categoria Literatura Especial. Em entrevista concedida ao jornal Brasil de Fato em 2021, Irene Santos sublinhou a missão de sua obra, afirmando que ela provava a existência de negros honestos e trabalhadores em uma cidade muitas vezes percebida como racista. Para a fotógrafa, <i>"A fotografia analógica garantiu a heroica resistência de uma 'população invisível' e que corria o risco de ser eliminada dos anais da História da cidade"</i>, revelando a urgência e a profundidade de seu trabalho.

Outras Contribuições e o Reconhecimento Contínuo

A produção de Irene Santos vai além de sua obra mais conhecida. Ela também é autora do livro "Colonos e Quilombolas – Memórias das Colônias Africanas de Porto Alegre", e idealizadora do webdocumentário "Outros Carnavais – Memória do Carnaval de Rua de Porto Alegre, 1930-1969", além de inúmeras outras publicações, exposições e peças teatrais que exploram as raízes e a complexidade da cultura afro-brasileira.

A perenidade de sua influência foi reafirmada ainda este ano, quando seu trabalho voltou a ser celebrado no Museu da Universidade Federal do Rio Grande do Sul com a exposição <b>"A Força da Memória"</b>. Este evento recente é um testemunho da relevância atemporal e do legado duradouro que Irene Santos deixa para as novas gerações de historiadores, artistas e ativistas da memória.

Irene de Figueiredo Santos foi, em vida, uma inquestionável referência para a fotografia e a pesquisa histórica no Rio Grande do Sul e no Brasil. Sua obra meticulosa e apaixonada garantiu que vozes e imagens, outrora silenciadas, fossem eternizadas, enriquecendo o patrimônio cultural e reforçando a compreensão da rica e complexa formação da identidade brasileira. Seu legado ressoa como um convite perene à valorização e ao estudo da memória negra.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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