Quatro meses após a morte do aiatolá Ali Khamenei em um ataque atribuído a Israel e aos Estados Unidos – um evento que precipitou uma escalada de tensões na região –, o Irã se mobiliza para um funeral de três dias em sua homenagem. A capital, Teerã, transformou-se em uma verdadeira fortaleza para acolher as cerimônias que marcarão a despedida do líder supremo, falecido aos 86 anos em 28 de fevereiro, quando sua residência foi atingida por bombardeios. Khamenei, que ocupou a posição de líder supremo por mais tempo desde a fundação da República Islâmica em 1979, é agora o epicentro de um evento que se anuncia como um dos maiores da história do país.
Um Adeus em Cenário de Tensão e Afirmação de Poder
Apesar da tristeza oficial, o funeral de Ali Khamenei é também estrategicamente planejado como uma poderosa demonstração de força iraniana. A estimativa é que entre 15 milhões e 20 milhões de pessoas compareçam apenas na capital iraniana ao longo dos três dias de homenagens. Este número expressivo não apenas reflete a magnitude da figura do líder, mas serve como um contraponto direto à recente guerra de quase 40 dias contra Israel e os Estados Unidos, um conflito que resultou em milhares de mortes de civis e de altos dirigentes iranianos. O evento ocorre em um delicado contexto de um cessar-fogo frágil com os EUA e de insatisfação interna, marcada por protestos contra o alto custo de vida e o governo, adicionando camadas de complexidade à atmosfera já carregada.
Mobilização e Logística de um Funeral de Estado Sem Precedentes
Os preparativos para o funeral, originalmente agendado para março e adiado devido ao conflito, são descritos como os maiores já realizados no Irã. Equipes de trabalhadores finalizaram os detalhes na mesquita onde o caixão será velado, sob um calor intenso, enquanto as autoridades implementaram um rigoroso esquema de segurança desde quinta-feira. Um amplo perímetro foi estabelecido, com restrições severas para veículos. O aeroporto da capital operará parcialmente fechado e terá suas atividades totalmente suspensas na segunda-feira, que foi decretada feriado nacional. Além disso, centros comerciais fecharam suas portas e empresas foram obrigadas a suspender o funcionamento, evidenciando a escala da mobilização para o evento.
O Roteiro das Cerimônias e o Último Repouso
A jornada de despedida teve início na noite de quinta-feira (2), com uma cerimônia privada que reuniu familiares de vítimas da Guerra Irã-Iraque, integrantes do gabinete do líder supremo e membros da Guarda Revolucionária. As homenagens públicas começam neste fim de semana, com expectativa de formação de filas já na noite de sexta-feira. Os portões do complexo religioso de Mosalla, onde o velório principal ocorrerá, serão abertos às 6h de sábado (4) e permanecerão assim até segunda-feira (6). Após o velório, o caixão seguirá em cortejo pelas ruas de Teerã. Na terça-feira (7), será levado à cidade sagrada de Qom, e na quarta-feira (8), passará pelo Iraque, um país de maioria xiita. O enterro final está previsto para 9 de julho, na cidade sagrada de Meshed, no nordeste do Irã, local de nascimento de Khamenei. Este evento se compara, em magnitude, ao funeral do aiatolá Ruhollah Khomeini em 1989, que atraiu cerca de 10 milhões de pessoas, embora tenha sido marcado por tumultos que resultaram em mais de dez mortes.
Presença Internacional e o Legado Simbólico
A dimensão internacional do funeral é notável, com a expectativa de autoridades de aproximadamente 30 países, majoritariamente da região. Entre as presenças confirmadas estão o ex-presidente russo Dmitri Medvedev e o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, além de He Wei, um alto dirigente do Parlamento chinês, representando a China. Nenhum líder europeu, entretanto, foi convidado, sublinhando a orientação geopolítica do evento. As ruas e locais da cerimônia estão adornados com imagens de Khamenei, muitas delas retratando-o com o punho erguido, um símbolo de sua defesa da resistência ao Ocidente. Faixas proclamam: 'Teu nome permanecerá eterno nesta terra de ouro', enquanto painéis e cartazes pela cidade reverenciam o antigo líder como 'mártir', reforçando uma narrativa de heroísmo e perseverança.
A Questão da Sucessão e os Familiares Enlutados
Um ponto de atenção durante as cerimônias é a possível presença de Mojtaba Khamenei, filho do falecido líder, que assumiu o posto de líder supremo no início de março. Contudo, sua participação não foi confirmada, uma vez que ele teria sido ferido nos mesmos ataques que vitimaram seu pai e, desde então, tem se manifestado apenas por meio de mensagens escritas. Esta situação gera questionamentos sobre a visibilidade da nova liderança em um momento tão crucial. Ao lado do caixão de Ali Khamenei, também serão velados outros familiares que morreram no mesmo ataque inicial que desencadeou o conflito, incluindo uma filha, um genro, uma nora e uma neta, adicionando uma camada de tragédia pessoal ao luto nacional.
Conclusão: Um Funeral que Reflete o Momento do Irã
O funeral de Ali Khamenei transcende o luto pela perda de um líder para se tornar um espelho das complexas realidades do Irã. É um evento que conjuga a dor nacional com uma assertiva demonstração de resiliência e poder, em um cenário geopolítico volátil. A grandiosidade das cerimônias, a vasta mobilização popular e a cuidadosa orquestração política sublinham a importância de Khamenei para a República Islâmica e a mensagem que o Irã busca enviar ao mundo, em meio aos desafios internos e externos que moldam seu futuro.
Fonte: https://g1.globo.com