A cerca de duas horas de carro ao norte de São Francisco, em meio à deslumbrante paisagem costeira da Califórnia, esconde-se um vestígio surpreendente de uma era pouco conhecida da história norte-americana. Após serpenteantes estradas que se abrem para o Oceano Pacífico, entre vinhedos e sequoias imponentes, surge uma capela ortodoxa isolada, suas cúpulas se destacando contra o azul do céu e do mar. Este é o primeiro indício de um passado que desafia a percepção comum da Califórnia: o Forte Ross, que um dia marcou o extremo sul de um 'império esquecido' russo no continente americano.
Fundado no início do século XIX, este assentamento russo em Sonoma, a 145 km da agitada São Francisco, é uma relíquia de quando a Califórnia fazia parte da América Russa. A maioria dos californianos, e mesmo muitos viajantes da famosa Pacific Coast Highway, desconhece que, por três décadas, a Rússia czarista manteve uma colônia permanente em suas terras. Conforme observado pelo arqueólogo Chris Kimsey e pelo antropólogo Kent Lightfoot, este capítulo da história local, embora fundamental, permanece amplamente ignorado, ofuscado pelas narrativas espanhola e mexicana.
A Expansão Russa e a Companhia Russo-Americana
Diferente das potências europeias que se voltavam para o oeste, a Rússia, entre os séculos XVI e XVII, empreendeu uma notável expansão para o leste, atravessando a vasta Sibéria até alcançar a costa do Pacífico. Essa jornada culminou na fundação de assentamentos permanentes nas ilhas e no litoral do Alasca. Em 1799, o czar Paulo I formalizou essa presença com a criação da Companhia Russo-Americana (RAC), uma entidade com propósitos lucrativos modelada nas companhias das Índias Orientais, que não apenas controlava o lucrativo comércio de peles, mas também administrava todo o Alasca como uma colônia incorporada ao império.
No entanto, a prosperidade do comércio de peles contrastava com uma grave dificuldade: a subsistência dos colonos. O clima inóspito do Alasca impossibilitava a agricultura em larga escala, levando a colônias famintas e tripulações dizimadas por doenças como o escorbuto. Essa crise impulsionou os russos a buscar alternativas mais ao sul, vislumbrando um clima mais ameno e potenciais parceiros comerciais na então Califórnia espanhola.
Nikolai Rezanov e a Missão Californiana
Em abril de 1806, diante da iminente ameaça de fome em sua colônia e da fragilidade de sua tripulação, Nikolai Rezanov, diretor da Companhia Russo-Americana, empreendeu uma viagem ousada. Sua embarcação, o Juno, adentrou a Baía de São Francisco. A chegada de um navio russo era um evento há muito antecipado pelos espanhóis, que haviam reivindicado a Califórnia desde 1542, mas só a ocuparam efetivamente a partir de 1769. A visita de Rezanov marcou um momento crucial, sinalizando o interesse russo na região e a busca por uma solução para a escassez alimentar do Alasca.
Essa expedição exploratória abriu caminho para a fundação de Fort Ross em 1812. O assentamento, cujo nome é uma abreviação de 'Rossiya' (Rússia), foi concebido para ser um celeiro autossuficiente, capaz de fornecer alimentos aos postos avançados do Alasca. Além de sua função agrícola, o forte rapidamente se tornou uma base para projetos mais ambiciosos, servindo como ponto de partida para debates sobre a expansão russa pela América do Norte e até mesmo a tentativa de reivindicar todo o litoral noroeste do Pacífico, uma visão que se estendia para muito além das suas cercas de madeira.
Um Legado Pioneiro e Cosmopolita
Durante seus trinta anos de existência, entre 1812 e 1842, Fort Ross representou a única colônia permanente do Império Russo fora do Alasca, estabelecendo-se em território californiano décadas antes mesmo da chegada de colonizadores americanos que haviam conquistado sua independência em 1776. O forte não era apenas um posto militar ou agrícola; era um assentamento inovador e surpreendentemente cosmopolita para a época, abrigando russos, nativos americanos (especialmente do povo Kashaya Pomo) e alasquenses, que colaboravam e interagiam em um ambiente culturalmente diverso.
Este período da história californiana, frequentemente esquecido em detrimento das narrativas espanhola e mexicana, oferece uma perspectiva única sobre as complexas interações coloniais na América do Norte. A Rússia, por meio de Fort Ross, deixou uma marca indelével na paisagem e na tapeçaria histórica da Califórnia, que, apesar de pouco conhecida, é um testemunho da vastidão e da audácia das ambições imperiais do século XIX, e um lembrete de que a história muitas vezes guarda segredos nas suas margens.
Fonte: https://g1.globo.com