As autoridades migratórias dos Estados Unidos (ICE) anunciaram, nesta segunda-feira (15), a captura de um ex-líder de alto escalão das notórias facções criminosas brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV). A detenção, que culminou em uma perseguição dramática na Carolina do Norte, representa um importante passo na cooperação internacional contra o crime organizado, trazendo à tona as complexidades da atuação transnacional dessas organizações e as divergências entre Brasil e EUA sobre sua classificação.
A Captura Dramática de "Don"
Felipe Linares De Oliveira Dell Aquilla, conhecido pelo pseudônimo "Don", estava sob uma ordem de busca e captura da Interpol, emitida pelo Brasil. Sua tentativa de fuga foi interceptada em um controle de tráfego na cidade de Mooresville, Carolina do Norte, enquanto ele se dirigia em direção à fronteira com o México. Durante a abordagem, "Don" demonstrou resistência, mantendo sua esposa refém dentro do veículo na tentativa desesperada de escapar. A subsequente tentativa de evasão resultou em um acidente, momento em que foi finalmente capturado pelas forças de segurança. No interior do carro, os agentes encontraram uma arma de fogo, dinheiro em espécie e múltiplos aparelhos celulares, itens que reforçam seu envolvimento contínuo em atividades ilícitas.
O Perfil Crimininoso de Felipe Dell Aquilla
A figura de Felipe Linares De Oliveira Dell Aquilla é central no cenário do crime organizado brasileiro. Conhecido por seu codinome "Don", ele exerceu liderança em ambas as facções mais poderosas do país, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). A ordem de busca e captura da Interpol contra ele, solicitada pelo Brasil, baseava-se em graves acusações de "associação criminosa" e "extorsão", crimes que ressaltam a amplitude de suas atividades ilícitas e o perigo que representava para a segurança pública, tanto em seu país de origem quanto em nível internacional.
Divergências Transatlânticas sobre a Classificação das Facções
A prisão de Dell Aquilla ocorre em um contexto de debate geopolítico sobre a natureza dessas organizações criminosas. Os Estados Unidos, em uma medida que gerou controvérsia diplomática, designaram o PCC e o CV como organizações terroristas em 28 de maio. Esta decisão difere significativamente da posição do governo brasileiro. Anteriormente, em maio de 2025, David Gamble, chefe interino de coordenação do Departamento de Sanções dos EUA, havia solicitado ao Brasil que adotasse a mesma classificação, mas o pedido foi negado.
O Secretário Nacional de Segurança Pública do Brasil, Mario Sarrubbo, justificou a recusa, afirmando que as facções não se enquadram na definição de terrorismo estabelecida pela Constituição brasileira e pela Lei Antiterrorismo, sancionada em 2016. Esta legislação define terrorismo como atos motivados por xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia ou religião, visando provocar terror social ou generalizado, critérios que, segundo as autoridades brasileiras, não se aplicam diretamente às ações do PCC e do CV, cujos objetivos são predominantemente o controle de territórios e o lucro advindo de atividades criminosas.
Implicações da Captura e do Debate Internacional
A detenção de "Don" pelos agentes do ICE reforça a vigilância e o esforço conjunto das autoridades americanas no combate a indivíduos envolvidos com o crime transnacional. A captura de um ex-líder de tal relevância envia um sinal claro sobre o alcance das operações de segurança e a seriedade com que os Estados Unidos encaram a ameaça representada por essas organizações, independentemente das distinções classificatórias feitas por outros países.
O episódio também sublinha a complexidade da cooperação internacional em matéria de segurança, onde, apesar de objetivos comuns no combate ao crime, podem existir diferentes abordagens e interpretações legais sobre a natureza das ameaças. A prisão de Dell Aquilla, portanto, não é apenas um feito policial, mas também um catalisador para a reflexão contínua sobre as estratégias globais de enfrentamento a grupos que operam além das fronteiras nacionais.
Fonte: https://g1.globo.com