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EUA Sob Críticas na COP17 por Barrar Gênero e Participação Social em Negociações Cruciais

© Kiara Worth/UNCCD

A 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17) tem sido palco de intensas discussões e de uma controvérsia significativa envolvendo os Estados Unidos. Representantes da sociedade civil e de povos tradicionais manifestaram forte descontentamento com a postura da delegação norte-americana, que desde o início do evento tem bloqueado a inclusão de pautas sociais fundamentais na agenda de negociações. Essa resistência tem gerado um impasse, prejudicando o avanço de discussões consideradas vitais para a eficácia das políticas de combate à desertificação.

O Bloqueio da Pauta de Gênero e o Impasse do Consenso

Um dos pontos mais criticados é a rejeição explícita do tópico de gênero, que visa promover a igualdade de direitos e maior representatividade para as mulheres nos processos decisórios. Beth Roberts, articuladora de gênero da sociedade civil na conferência, revelou que os Estados Unidos exigiram a remoção da palavra 'gênero' de qualquer debate, qualificando-a como 'inegociável'. Essa atitude, segundo Roberts, reflete uma postura abertamente ideológica adotada pela administração de Donald Trump e se conecta a estruturas mais amplas de poder, nacionalismo e autoritarismo.

A relevância desse bloqueio é amplificada pela dinâmica de decisão da COP17. As principais deliberações da conferência, que abrangem desde a agenda e mecanismos até relatórios e protocolos globais, dependem do consenso entre os países-membros. Isso significa que a objeção de uma única nação é suficiente para impedir a aprovação de qualquer elemento dos textos oficiais, concedendo um poder de veto significativo a um só ator. Diante desse cenário, Roberts defendeu a união dos demais países para utilizarem ferramentas protocolares da conferência e salvaguardar o espaço de negociação contra tentativas deliberadas de travar avanços.

As Vozes da Sociedade Civil e a Urgência dos Impactos Reais

A crítica à postura dos EUA não se restringiu à questão de gênero. Jennifer Tauli Corpuz, representante do grupo indígena Kankana-ey Igorot das Filipinas, trouxe uma perspectiva fundamental sobre o conceito de consenso. Ela destacou que, nas comunidades indígenas, o consenso não significa unanimidade ou o direito de uma única parte bloquear o avanço. Para Corpuz, a objeção individual não deve prevalecer sobre o bem-estar coletivo. A líder indígena reforçou a urgência de priorizar os impactos reais no terreno – como a seca e a fome – em detrimento dos bloqueios diplomáticos, conclamando os países a atuarem com coragem e responsabilidade para atender às necessidades das populações afetadas.

Complementando essa perspectiva, a ativista Hindou Oumarou Ibrahim, líder do povo pastoral Mbororo do Chade, sublinhou a necessidade de integrar a ciência aos conhecimentos tradicionais. Ibrahim argumentou que a sociedade civil e as comunidades que representa não são meras observadoras, mas sim fontes de soluções concretas e indispensáveis para os desafios da desertificação. Ela questionou a lógica de reconhecer a importância dessas vozes fora das salas de negociação, mas excluí-las das decisões que moldam o futuro do planeta, enfatizando o papel ativo e participativo que os grupos da sociedade civil devem ter em todas as etapas do processo.

Mobilização Internacional em Defesa da Inclusão

Diante do impasse provocado pela delegação norte-americana, países como o Brasil e membros da União Europeia têm se destacado na oposição e na defesa veemente da inclusão da sociedade civil na agenda da COP17. O ministro do Meio Ambiente e da Mudança do Clima do Brasil, João Paulo Capobianco, reiterou o posicionamento de que as negociações ambientais devem, obrigatoriamente, incluir aqueles que são os mais impactados por elas.

Capobianco expressou preocupação com a existência de manifestações contrárias à participação da sociedade civil e a dificuldade em formalizar grupos de debate permanentes junto à convenção. Ele enfatizou a necessidade de enfrentar essa tendência nos dias finais da conferência, buscando reverter o cenário atual para garantir que as vozes e as soluções da sociedade civil sejam devidamente incorporadas às decisões que determinarão o futuro da luta contra a desertificação e a degradação ambiental.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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