Os Estados Unidos, tradicionalmente um dos destinos mais cobiçados do mundo, estão enfrentando uma maré de desafios que afasta turistas internacionais. Apesar da proximidade de eventos globais de grande porte, como a Copa do Mundo da FIFA em 2026 e celebrações significativas, como o centenário da Rota 66 e os 250 anos de sua independência, o país registra uma notável queda no setor turístico. Uma complexa teia de obstáculos, que vai desde entraves burocráticos e operacionais até mudanças na percepção internacional e políticas que geram insegurança, tem levado viajantes de diversas partes do globo a reconsiderarem seus planos de visita.
Crise Operacional e a Experiência nos Aeroportos
A recente paralisação parcial do governo americano, a mais longa na história do país, desencadeou uma crise significativa na infraestrutura aeroportuária. A falta de aprovação orçamentária para a Administração de Segurança do Transporte (TSA) resultou em fiscais trabalhando sem remuneração por mais de um mês, levando milhares a suspenderem suas atividades e mais de 500 a se demitirem. Consequentemente, os aeroportos registraram tempos de espera sem precedentes, alguns atingindo até quatro horas, os mais longos em 24 anos de história da TSA. Embora uma ordem presidencial de 30 de março tenha restaurado os pagamentos e visado reduzir os atrasos, a imagem de filas caóticas e a subsequente percepção de ineficiência já haviam se consolidado no imaginário de potenciais visitantes.
Políticas Migratórias e a Ascensão da Incerteza
Além das questões operacionais, a presença contínua de agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) nos aeroportos tem gerado apreensão entre os viajantes. Inicialmente alocados para suprir a defasagem de pessoal da TSA, o Secretário de Transporte, Sean Duffy, confirmou que permanecerão "pelo tempo que for necessário". Essa permanência é vista com ressalvas, uma vez que os agentes do ICE não possuem treinamento específico em segurança da aviação, o que contribui para um ambiente de maior rigidez e insegurança. Cidadãos como Sandra Awodele, uma americana naturalizada nascida na Nigéria, relatam que a constante atuação do ICE as leva a alterar roteiros para evitar aeroportos com forte presença desses agentes, temendo procedimentos desconhecidos e detenções errôneas. Esse cenário é agravado por propostas políticas, como a de 2025 do governo Trump, que exigiria histórico de redes sociais de cinco anos de visitantes de 42 países do programa de isenção de vistos. Mesmo que não totalmente implementada, a percepção de uma "temperatura" mais hostil, como descreve o advogado Evan Oshan, já afeta a confiança dos viajantes internacionais.
Números Alarmantes de um Setor em Retração
Os impactos dessas circunstâncias já se manifestam em dados concretos. Em 2025, enquanto o turismo mundial cresceu 4%, os Estados Unidos registraram uma queda de 5,4% no fluxo de visitantes, conforme o Barômetro Mundial do Turismo. A situação é ainda mais drástica em mercados específicos: o número de canadenses que visitaram os EUA diminuiu 22% em 2025 em comparação com 2024, representando a maior redução entre todos os mercados turísticos globais. Essa retração é particularmente preocupante para um país que se prepara para sediar eventos de magnitude global nos próximos anos, os quais, em um cenário normal, impulsionariam o setor de maneira significativa.
A Influência do Sentimento Antiamericano na Escolha do Destino
Uma camada adicional de complexidade reside no crescente sentimento antiamericano, impulsionado por algumas políticas e retóricas do governo. A percepção de que os Estados Unidos tratam aliados como adversários, seja em questões tarifárias, na postura em relação à OTAN ou no tom geral em relação a países europeus, tem um peso considerável na decisão de viajar. Johan Konst, empresário holandês que frequentemente visita os EUA, exemplifica essa mudança ao afirmar que, embora ainda pretenda viajar, tornou-se mais seletivo quanto ao momento de suas visitas, influenciado pela dinâmica geopolítica. Essa combinação de longas esperas nos aeroportos e uma percepção internacional menos favorável leva muitos a questionar se este é, de fato, o momento ideal para visitar o país.
Em suma, a conjunção de desafios operacionais nos aeroportos, o endurecimento e a incerteza das políticas migratórias, uma expressiva queda nos indicadores de turismo e um perceptível aumento do sentimento antiamericano criam um cenário desfavorável para o setor nos Estados Unidos. O país, que se prepara para um período de grandes celebrações e eventos internacionais, vê sua imagem de destino acolhedor e acessível ser questionada. Reverter essa tendência exigirá mais do que apenas soluções pontuais para problemas logísticos; demandará uma estratégia abrangente para reconstruir a confiança e a percepção positiva entre os viajantes de todo o mundo.
Fonte: https://g1.globo.com