Após a derrota da Argentina na final da Copa do Mundo de 2026, estudantes brasileiros residentes no país vizinho se veem em meio a uma alarmante onda de ameaças e intimidação. A situação levou muitos a desativarem suas redes sociais, evitarem eventos públicos e, em alguns casos, a sentirem receio até mesmo de sair de casa, comprometendo seriamente suas rotinas acadêmicas e sociais na capital argentina. Este clima de hostilidade, que inclui ofensas racistas e ameaças de morte, gerou um profundo sentimento de injustiça e insegurança entre a comunidade brasileira.
Escalada da Hostilidade e a Exposição em Rede Nacional
A onda de intimidação teve um ponto de inflexão significativo quando um programa de televisão argentino, o Crónica TV, exibiu imagens de brasileiros comemorando a derrota da seleção argentina. O episódio não apenas expôs os nomes de usuários nas redes sociais, mas também inflamou um ambiente de já existente rivalidade esportiva, transformando-o em uma campanha de ódio direcionada. Uma das estudantes entrevistadas pelo g1 relatou que, após a exibição, suas redes sociais foram derrubadas, e ela passou a receber uma enxurrada de ofensas, incluindo ameaças de morte e mensagens racistas, algumas acompanhadas até de fotos de armas de fogo.
Rotina Acadêmica e Social Comprometida por Ameaças
A repercussão da final da Copa do Mundo e a subsequente exposição midiática desencadearam uma série de ações de intimidação que impactaram diretamente a vida dos estudantes brasileiros em Buenos Aires. Uma estudante de medicina do Distrito Federal, que preferiu não ser identificada, detalhou ao g1 a existência de uma planilha circulando nas redes sociais, contendo nomes completos e instituições de ensino de diversos estudantes brasileiros. Esta lista está sendo usada para enviar e-mails a faculdades de medicina, exigindo punições contra os alunos. Houve até mesmo tentativas de pressionar um hospital para excluir uma brasileira de sua residência médica, unicamente por ter torcido por outra seleção.
Além das ameaças diretas e das tentativas de prejudicar a carreira acadêmica dos estudantes, a atmosfera de medo alterou a rotina diária. Encontros previamente agendados pela comunidade brasileira foram cancelados por precaução, e muitos se sentem receosos de frequentar as próprias faculdades. A estudante anônima expressou seu "enorme sentimento de injustiça" diante da perseguição por uma simples manifestação de preferência esportiva, destacando que comentários ofensivos, incluindo termos pejorativos como "macacos", são comuns e que muitos argentinos esperam que os estudantes brasileiros torçam pela seleção local.
Medidas de Proteção e Perspectivas Futuras
Diante da gravidade da situação, os estudantes têm adotado medidas de autoproteção. A jovem do Distrito Federal optou por desativar suas redes sociais, explicando que o constante monitoramento da "onda de ódio" estava gerando um medo paralisante de sair na rua, embora reconheça a necessidade de manter sua rotina de estudos. Ela fez questão de ressaltar que os ataques provêm de um "grupo pequeno, mas muito barulhento", que não representa a maioria da população argentina.
A estudante que foi diretamente exposta pela Crónica TV planeja registrar as ameaças na polícia local, buscar apoio junto à Embaixada do Brasil em Buenos Aires e está avaliando a possibilidade de iniciar ações judiciais contra a emissora. Apesar do medo e da intensidade das intimidações, ela reiterou sua intenção de permanecer na Argentina para concluir seu curso de medicina, demonstrando resiliência frente à adversidade.
Fonte: https://g1.globo.com