A tensão entre os Estados Unidos e o Irã escalou para um novo patamar de confronto direto no Golfo Pérsico, marcando uma semana de intensos ataques recíprocos após o colapso de um cessar-fogo. As hostilidades, que incluem a sétima noite consecutiva de ofensivas americanas contra alvos iranianos, levaram o Irã a retaliar com ataques a aliados de Washington na região, elevando significativamente os preços globais do petróleo e intensificando a preocupação com uma guerra em larga escala.
Avanço das Ofensivas Militares no Golfo
O Comando Central das Forças Armadas dos EUA confirmou a continuidade de seus ataques, visando sistemas de vigilância, infraestrutura logística militar, depósitos subterrâneos de armas e instalações marítimas iranianas. Em resposta, a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC) assumiu a autoria de investidas contra bases militares americanas e instalações de seus parceiros regionais. No Kuwait, foram reportados ataques a um centro de apoio militar no Campo Arifjan e a destruição de uma instalação de radar na Base Aérea de Ali Al Salem. A IRGC também afirmou ter atingido a Base Aérea de Sheikh Isa, no Bahrein, que supostamente concentra aeronaves de combate americanas e um centro de dados de inteligência.
Adicionalmente, a mídia estatal iraniana noticiou que a Guarda Revolucionária destruiu caças americanos e outras aeronaves na base de Al Azraq, na Jordânia, durante um ataque com mísseis e drones. Embora a Reuters não tenha conseguido verificar de forma independente todas as informações divulgadas pela mídia iraniana, a série de incidentes sublinha a gravidade da escalada, transformando o Golfo em um palco de confrontos mais diretos e abrangentes.
Ataques à Infraestrutura Civil e Implicações Humanitárias
Uma dimensão preocupante do conflito é o aumento dos ataques à infraestrutura civil, gerando alarmes sobre possíveis crimes de guerra. No Kuwait, uma usina de geração de energia e dessalinização foi alvo de ataques iranianos pelo segundo dia consecutivo, de acordo com o Ministério da Eletricidade, Água e Energias Renováveis do país, o que também suspendeu as operações no Aeroporto Internacional do Kuwait devido a ameaças persistentes de mísseis e drones. Estas ações tiveram como consequência a interrupção do abastecimento de água e energia em diversas localidades.
Do lado iraniano, infraestruturas vitais também foram atingidas. Mísseis impactaram instalações de energia e unidades de dessalinização na cidade de Jask, no sul do país, deixando cerca de dez mil pessoas em 20 vilarejos sem acesso à água. Relatos na província de Hormozgan, às margens do Estreito de Ormuz, mencionaram a morte de três pessoas e oito feridos, além de danos a pontes e um túnel rodoviário. Ataques atribuídos aos EUA teriam atingido pelo menos cinco pontes no sul do Irã, incluindo o porto de Bandar Khamir, resultando em sete mortes e atingindo uma estação ferroviária e um aeroporto em Iranshahr. O secretário-geral da ONU, António Guterres, expressou profunda preocupação com a escalada, enfatizando os ataques à infraestrutura civil em toda a região.
Impacto Econômico e Tensão Marítima no Estreito de Ormuz
A intensificação do conflito teve um impacto imediato e significativo no mercado global de energia. Os preços do petróleo registraram alta de mais de 4% na última sexta-feira, alcançando o maior nível em mais de um mês. Essa valorização do barril adiciona uma camada de pressão política sobre o presidente dos EUA, Donald Trump, em meio à campanha do Partido Republicano para manter sua maioria nas eleições legislativas de novembro. A incerteza quanto ao fornecimento global é agravada pela tensão no Estreito de Ormuz, uma rota marítima crucial por onde transita aproximadamente um quinto do abastecimento mundial de petróleo.
Ambos os lados trocaram acusações sobre as atividades marítimas na região. Enquanto os EUA afirmam estar impondo um bloqueio naval, o Irã declarou que passou a atacar embarcações que, segundo Teerã, violavam suas regras de navegação no estratégico estreito. Essa disputa sobre a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz eleva o risco de interrupções no fluxo de petróleo, com potenciais repercussões econômicas globais ainda mais graves.
Retórica Belicista e o Risco de Conflito Aberto
A retórica de ambos os lados reflete uma disposição crescente para o confronto. A Guarda Revolucionária Iraniana justificou suas ações citando o Alcorão, afirmando que, na ausência de uma instituição internacional capaz de conter as forças armadas dos EUA, não resta outro caminho senão a retaliação. O grupo também emitiu um alerta severo, indicando que os aliados dos Estados Unidos na região devem se preparar para novos ataques. Essa postura sublinha a ausência de canais diplomáticos eficazes e a escalada da mentalidade de 'olho por olho'.
Do lado americano, o presidente Donald Trump já havia ameaçado lançar ataques aéreos em larga escala contra a infraestrutura iraniana e se recusou a descartar uma ofensiva terrestre. Autoridades dos EUA indicaram que os ataques ao sul do Irã visam, em parte, ampliar as opções militares à disposição do presidente. A troca de acusações e a intensidade dos ataques sugerem que Washington e Teerã estão testando os limites da escalada desde o colapso do acordo de cessar-fogo na semana passada, aumentando o risco de um retorno a uma guerra em larga escala, com consequências imprevisíveis para a estabilidade regional e global.
Fonte: https://g1.globo.com