O setor empresarial emerge como um agente transformador crucial na erradicação da violência contra mulheres e meninas no Brasil. Em um recente evento no Rio de Janeiro, Márcio Rosa, secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), sublinhou a responsabilidade das empresas em atuar em três frentes essenciais: prevenção, intervenção e acolhimento. A discussão, que reuniu representantes de grandes corporações públicas e privadas, evidenciou a necessidade de ir além das respostas meramente punitivas, focando na construção de ambientes seguros e na promoção de uma cultura de respeito.
A Estratégia Corporativa para a Transformação Cultural
A visão do MDIC aponta para uma atuação empresarial que transcende as fronteiras operacionais, engajando-se ativamente na transformação cultural da sociedade. O setor produtivo é convocado a não apenas combater o fenômeno da violência de gênero após sua ocorrência, mas a agir preventivamente, desmantelando as raízes culturais que perpetuam o alto índice de feminicídios no país. Isso implica em estabelecer um ambiente de trabalho intrinsecamente livre de todas as formas de violência, servindo como um modelo de conduta e exigindo práticas semelhantes de toda a sua cadeia de fornecedores, estendendo assim seu impacto positivo.
Desafios Éticos e a Urgência da Ação Interna
A inação corporativa diante da violência de gênero é categorizada como uma falha ética e uma omissão institucional, segundo o secretário-executivo. Ele destacou a importância crítica de criar canais seguros para denúncias, garantindo que as vítimas não sejam penalizadas ou expostas e que os agressores sejam devidamente responsabilizados. Combater uma cultura interna permissiva a assédio ou violência é imperativo. Nesse contexto, propõe-se que as próprias mulheres sejam protagonistas na formulação de políticas internas, assegurando que as transformações culturais sejam genuínas e incorporadas nas ações cotidianas, vindo da alta gestão, mas com a voz de quem vive a realidade.
O Impacto Devastador e o Imperativo da Colaboração
Os dados sobre feminicídio no Brasil são alarmantes, refletindo uma realidade que clama por ação imediata. Conforme o Relatório Anual de Feminicídios no Brasil 2025, elaborado pela Universidade Estadual de Londrina, o país registra a morte de seis mulheres por dia, somando mais de 2,1 mil vítimas e 4,7 mil tentativas de feminicídio no ano anterior. Essa estatística brutal não é um mero acaso, mas sim o reflexo de uma cultura historicamente violenta e, por vezes, tolerada contra as mulheres. É nesse cenário que o Pacto Nacional de Prevenção ao Feminicídio se apresenta como uma iniciativa vital, envolvendo governo, sociedade civil e o setor privado em uma atuação conjunta. A integração de esforços é a única via para romper o ciclo da violência, reforçando que esta não é uma pauta que pode esperar.
Exemplos de Iniciativas Transformadoras e Engajamento Social
A empresária Luiza Trajano, fundadora da Magazine Luiza, ilustrou o impacto de ações corporativas proativas com a apresentação do 'Canal Mulher'. Criado em 2017 após um caso trágico de feminicídio envolvendo uma funcionária, o canal oferece suporte psicológico e jurídico, chegando a custear aluguéis para funcionárias em situação de risco. Em 2019, a iniciativa foi aprimorada com a inclusão de um botão de denúncia no aplicativo da empresa, acionando o serviço 180 instantaneamente. A empresa também investiu no treinamento de colaboradores homens para identificar e intervir em situações de violência, um engajamento masculino que Trajano elogia no âmbito do Pacto Nacional de Prevenção ao Feminicídio, ressaltando que a conscientização precisa alcançar todos os segmentos da sociedade.
A importância do papel empresarial na conscientização social foi igualmente enfatizada por Wania Sant'Anna, presidenta do Pacto de Promoção da Equidade Racial. Ela sugeriu que as empresas, ao empregarem um número crescente de mulheres, devem comunicar seu compromisso com a causa de forma clara e visível, como a colocação de cartazes informativos em locais de grande circulação. Essa visibilidade não apenas empodera as funcionárias, mas também educa a sociedade sobre a inaceitabilidade da violência de gênero, contribuindo para a desnaturalização dessa problemática social.
Conclusão: Um Compromisso Inadiável com a Equidade e a Segurança
A violência de gênero, particularmente o feminicídio, é uma chaga social que exige uma resposta multifacetada e urgente. O engajamento do setor empresarial, conforme destacado pelo MDIC, não é apenas uma questão de responsabilidade social corporativa, mas um imperativo ético e econômico. Ao adotar uma postura proativa nas frentes de prevenção, intervenção e acolhimento, e ao promover uma profunda transformação cultural interna e externa, as empresas podem ser catalisadoras de mudanças significativas. A união de esforços entre governo, empresas e sociedade civil, como preconizado pelo Pacto Nacional, é o caminho para construir um Brasil onde nenhuma mulher precise temer pela sua vida, consolidando uma sociedade mais justa, equitativa e segura para todos.