Nesta quarta-feira (15), a Assembleia Legislativa do Estado de Mato Grosso (ALMT) testemunhou um momento de profundo significado histórico e social com a posse de Eliane Xunakalo. Originária do povo Kurâ-Bakairi, da Terra Indígena Santana, em Nobres, Xunakalo ascende ao cargo de deputada estadual, tornando-se a primeira mulher indígena a ocupar uma cadeira no parlamento mato-grossense. Embora seu mandato seja temporário, por um período de 30 dias, substituindo o deputado Lúdio Cabral (PT), sua presença representa uma quebra de paradigmas e a inserção de uma voz autêntica dos povos originários no cenário legislativo.
Um Marco de Representatividade e Equidade
A posse de Eliane Xunakalo transcende a mera ocupação de um cargo; ela simboliza um avanço crucial na luta pela representatividade de grupos historicamente marginalizados. A solenidade, convenientemente realizada na semana que antecede o Dia Nacional dos Povos Indígenas, amplifica seu impacto simbólico. A própria deputada destacou a importância de sua presença como um catalisador para futuras lideranças femininas indígenas. Em suas palavras, é uma oportunidade de 'abrir caminhos para que outras mulheres indígenas também possam chegar', incentivando a participação política e fortalecendo a equidade de gênero dentro de suas comunidades.
Trajetória Marcada pela Liderança e Defesa de Direitos
A chegada de Eliane Xunakalo à ALMT é fruto de uma sólida trajetória dedicada à defesa dos direitos e à promoção dos povos indígenas. Bacharel em Direito, com especializações em Direito Administrativo e Administração Pública, ela acumulou vasta experiência em espaços de liderança. Notavelmente, foi a primeira mulher a presidir a Federação dos Povos e Organizações Indígenas de Mato Grosso (Fepoimt), sendo inclusive reeleita para o cargo. Sua atuação se estende a articulações em nível nacional, consolidando sua posição como uma voz influente e respeitada no movimento indígena do país.
Foco e Estratégia para um Mandato Curto, mas Impactante
Mesmo ciente da brevidade de seu mandato, Eliane Xunakalo delineou uma agenda clara e ambiciosa para seus 30 dias na Assembleia. Sua prioridade reside em dar visibilidade às complexas demandas dos povos indígenas e das comunidades tradicionais de Mato Grosso. A intenção é transformar as realidades vivenciadas por essas populações em propostas legislativas concretas, projetos de lei e indicações que possam gerar impacto real. Ela reconhece o desafio da adaptação ao ritmo parlamentar, mas assegura que sua atuação será pautada pela escuta ativa e pela construção coletiva, visando deixar um legado de incidência política efetiva.
Além da Tribuna: A Mulher, Mãe e Militante
Fora do plenário, Eliane Xunakalo concilia a nova função pública com a vida familiar em Cuiabá, onde residia e presidia uma organização indígena antes de se licenciar para assumir o cargo. Casada e mãe de três filhos, sua jornada pessoal reforça a dimensão multifacetada da liderança indígena. Sua presença na ALMT é um reflexo não apenas de sua dedicação individual, mas também de uma construção coletiva, carregando as aspirações de sua comunidade e de outros povos originários, buscando fortalecer sua representação no cenário político estadual.
A nomeação de Eliane Xunakalo faz parte do sistema de rodízio do Partido dos Trabalhadores em Mato Grosso, que já beneficiou outros suplentes e está previsto para ser concluído em maio. Sua passagem pela ALMT, ainda que transitória, estabelece um precedente vital para a inclusão e a diversidade no Poder Legislativo, abrindo portas para que mais vozes indígenas, especialmente femininas, ocupem os espaços de decisão no futuro.