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Eliana Alves Cruz: A Voz Crítica que Questiona a Ausência Negra no Jabuti e na Literatura

© Tomaz Silva/Agência Brasil

Desde cedo, a escritora, jornalista e roteirista Eliana Alves Cruz nutria o desejo de se dedicar à escrita, uma vocação alimentada pelas histórias contadas por seu pai e avós. No entanto, a realidade de sustento a conduziu, por mais de duas décadas, a uma intensa carreira no jornalismo. Sua trajetória, marcada por um ponto de virada pessoal e profissional, culminou na consagração literária com múltiplos prêmios, incluindo dois Jabutis. Contudo, Eliana vai além do reconhecimento individual, lançando um questionamento incisivo sobre a histórica ausência de autoras negras nas mais altas esferas da literatura brasileira, especialmente em premiações de prestígio.

Da Jornada Pessoal à Consagração Literária

Apesar do sonho de ser escritora desde os 11 anos, Eliana Alves Cruz optou inicialmente pelo jornalismo, uma área que lhe permitia exercer a escrita enquanto garantia sua subsistência. Sua rotina como assessora de comunicação em esportes, frequentemente sete dias por semana, era exaustiva e absorvente. Esse ritmo, como ela própria relata, levou a um esgotamento severo entre 2009 e 2010. Foi nesse período de recuperação que Eliana decidiu redirecionar sua energia para uma paixão adormecida, iniciando as pesquisas que dariam origem à sua obra de estreia.

A dedicação de quase seis anos aprofundou a saga de sua própria família, descendente de africanos escravizados, resultando no aclamado livro *Água de Barrela*. Lançada em 2015, a obra não só marcou seu ingresso definitivo no universo literário, mas também lhe rendeu a primeira edição do Prêmio Literário Oliveira Silveira, da Fundação Cultural Palmares. Essa conquista crucial serviu como o incentivo necessário para que Eliana abraçasse a literatura como sua principal profissão, pavimentando o caminho para uma série de obras e reconhecimentos futuros que consolidariam sua notável carreira.

O Prêmio Jabuti e o Desafio da Representatividade Negra

A ascensão de Eliana Alves Cruz no cenário literário brasileiro foi firmada com importantes premiações. Em 2022, ela conquistou seu primeiro Prêmio Jabuti na categoria Contos, com o livro *A vestida*. Quatro anos depois, em 2026, voltou a ser laureada com o prestigiado prêmio, desta vez por *Meridiana*, uma obra que acompanha a jornada de uma família negra em busca de ascensão social em uma favela.

No entanto, o sucesso pessoal de Eliana transcende o ego, impulsionando-a a um questionamento social profundo. Ao tornar-se a primeira mulher negra a vencer o Jabuti na categoria Romance (implícito com *Meridiana*), ela expressou estranheza não por sua própria conquista, mas pela tardia ocorrência desse marco – apenas na 68ª edição do prêmio. A autora sublinha que escritoras fundamentais como Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e Ana Maria Gonçalves já poderiam e deveriam ter sido reconhecidas anteriormente, expondo uma lacuna histórica na valorização da literatura produzida por mulheres negras no Brasil.

Temáticas, Conquistas e a Permanência da Voz Jornalística

A obra de Eliana Alves Cruz é intrinsecamente ligada à investigação da vida negra no Brasil, com o racismo e a escravidão emergindo como temas centrais e recorrentes. Com *O crime do Cais do Valongo*, por exemplo, a escritora percebeu a consolidação de um projeto literário dedicado a explorar essas complexas realidades. Sua sensibilidade e profundidade na abordagem dessas questões a posicionam como uma das vozes mais relevantes da literatura contemporânea.

Além dos múltiplos Jabutis, Eliana Alves Cruz somou outros importantes reconhecimentos à sua trajetória, como o Prêmio Guimarães Rosa da Academia Brasileira de Letras em 2025, na categoria Ficção, também por *Meridiana*. Sua influência e reconhecimento são evidenciados ainda pela sua posse como membro da Academia Carioca de Letras, agendada para 17 de novembro. Mantendo um pé na comunicação, Eliana também apresentou o programa 'Trilha de Letras', na TV Brasil, revelando seu contínuo desejo de promover o debate literário em diferentes plataformas.

A trajetória de Eliana Alves Cruz é um testemunho de resiliência e talento, mas também um poderoso chamado à reflexão. Ao celebrar suas conquistas, a autora nos convida a confrontar as estruturas que historicamente invisibilizaram a contribuição de mulheres negras para a literatura brasileira. Sua obra e sua voz se consolidam como pilares essenciais na construção de um futuro literário mais inclusivo e representativo, honrando o passado e abrindo caminhos para as gerações vindouras de escritoras negras.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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