PUBLICIDADE

Dores Menstruais Impactam Quatro em Cada Dez Alunas e Revelam Desigualdades no Brasil

© Douglas Lopes/Divulgação

As dores menstruais representam um obstáculo significativo para a educação de milhares de meninas no Brasil, levando quatro em cada dez alunas a faltarem às aulas mensalmente. Uma pesquisa inédita, realizada pelo Instituto Alana em parceria com o Instituto Equidade.info, revela que 60% das estudantes dos ensinos fundamental e médio relatam cólicas fortes ou moderadas que perturbam a rotina escolar e exigem o uso de medicação. Os achados, divulgados no Dia Internacional da Dignidade Menstrual, lançam luz sobre um problema que transcende a esfera individual, exigindo atenção e soluções coletivas para garantir a continuidade educacional e o bem-estar das estudantes.

O Custo Educacional do Desconforto Menstrual

O estudo, que envolveu 2.551 estudantes – incluindo 770 que menstruam –, 303 docentes e 181 gestores de escolas públicas e privadas de todas as regiões do país, detalha os principais sintomas que afastam as alunas das salas de aula. A cólica é a queixa mais prevalente, citada por 57,7% das entrevistadas. Outras manifestações incluem cansaço e dores no corpo (30,1%), dores de cabeça (28%), dor de barriga (20,1%), e o constrangimento social associado à vergonha e ao medo de vazamentos (19,3%), além da falta de acesso a banheiros adequados ou produtos de higiene (8,2%). Estima-se que esses sintomas resultem em uma média de até dois dias de ausência por mês.

Sofia Reinach, líder da iniciativa de Endometriose, Dor Pélvica e Saúde Menstrual do Instituto Alana, alerta para as graves consequências do absenteísmo. Segundo Reinach, a perda regular de aulas pode comprometer a aprendizagem, enfraquecer o vínculo com a instituição de ensino e limitar oportunidades educacionais ao longo da trajetória acadêmica das alunas. Ela sublinha a urgência de encarar a questão com a seriedade que merece, evitando que a defasagem escolar se torne uma desvantagem crônica para uma parcela considerável da população estudantil feminina.

Transformando o Problema Individual em Pauta Coletiva

A pesquisa evidencia que, muitas vezes, as ausências relacionadas a sintomas menstruais são tratadas como questões estritamente pessoais, privadas ou inevitáveis. Contudo, o Instituto Alana propõe uma mudança de paradigma, defendendo o reconhecimento da dor menstrual como um problema coletivo que demanda soluções institucionais. Para isso, são sugeridos protocolos de faltas justificadas e a capacitação do corpo docente, visando não apenas à redução do constrangimento das alunas, mas também à melhoria do registro e monitoramento desses casos.

A expectativa é que a adoção dessas medidas contribua para um ambiente escolar mais acolhedor e compreensivo, onde as estudantes se sintam seguras para abordar suas necessidades sem receio de estigmatização. Tal abordagem proativa é fundamental para que as escolas se tornem parte ativa de uma rede de apoio à saúde e à dignidade menstrual.

Desigualdades Raciais e a Normalização da Dor Menstrual

Um recorte racial da pesquisa revela uma dimensão adicional e preocupante do problema: a disparidade na forma como as dores menstruais afetam diferentes grupos de alunas. Embora as meninas negras relatem sentir menos cólicas classificadas como 'fortes' em comparação com as brancas (25,9% contra 37,5%), elas faltam mais às aulas. Cerca de 14,5% das alunas negras perdem de dois a cinco dias por mês devido à menstruação, um índice 1,5 vez maior do que entre as alunas brancas, cuja taxa de absenteísmo é de 9,6%.

Sofia Reinach oferece uma interpretação crucial para essa aparente contradição. Ela argumenta que o indicador de dores fortes subestima o problema entre as alunas negras porque, culturalmente, elas são ensinadas a normalizar a dor e a acreditar que esta não requer tratamento. Isso se traduz em um limiar de dor mais alto, fazendo com que as meninas negras reconheçam menos suas cólicas como incapacitantes, mesmo que o impacto na prática as impeça de frequentar a escola. A especialista defende a necessidade urgente de profissionais da educação e da saúde desaprenderem o viés histórico de que corpos negros sentem menos dor ou são mais resilientes, incentivando uma escuta mais atenta e empática para garantir que todas as alunas recebam o suporte necessário.

Em suma, os dados do Instituto Alana e Instituto Equidade.info evidenciam que a dor menstrual não é apenas uma questão de saúde individual, mas um desafio coletivo com profundas implicações educacionais e sociais, exacerbado por desigualdades raciais. Reconhecer a gravidade e a complexidade desse problema é o primeiro passo para construir ambientes escolares que promovam a dignidade menstrual e assegurem a igualdade de oportunidades para todas as estudantes.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

Leia mais

PUBLICIDADE