O Departamento de Justiça dos Estados Unidos, durante a administração de Donald Trump, iniciou uma investigação criminal contra E. Jean Carroll, a escritora que acusou o ex-presidente de abuso sexual. A apuração busca determinar se Carroll cometeu perjúrio em depoimentos relacionados aos dois processos civis que venceu contra Trump, envolvendo alegações de estupro e difamação, conforme revelou uma fonte familiarizada com o assunto à agência de notícias Reuters nesta quarta-feira (27).
Esta investigação ocorre em um contexto de diversas ações conduzidas pelo Departamento de Justiça de Trump contra figuras que se opuseram ao então presidente, culminando em acusações criminais em alguns desses casos desde o ano passado.
A Investigação por Perjúrio: Detalhes e Controvérsia
A apuração contra E. Jean Carroll está sendo conduzida pelo gabinete do procurador dos EUA em Chicago e foca na veracidade de seus testemunhos. A base para a ação dos promotores reside em um depoimento de 2022, no qual a escritora teria afirmado não ter recebido financiamento externo para o processo judicial. Essa informação foi posteriormente contestada por seus próprios advogados, que revelaram que Reid Hoffman, o bilionário cofundador do LinkedIn, havia contribuído com o pagamento de parte dos honorários advocatícios de Carroll. Este é o ponto central da alegação de perjúrio que o Departamento de Justiça busca esclarecer.
As Condenações de Trump: Abuso Sexual e Difamação
A investigação por perjúrio surge após E. Jean Carroll ter obtido vitórias significativas em tribunais civis contra Donald Trump. Em 2023, o ex-presidente foi condenado por abuso sexual contra Carroll, episódio que a escritora alegou ter ocorrido em meados da década de 1990 em uma loja de departamentos em Manhattan. O júri também considerou Trump culpado por difamar Carroll após ela tornar públicas as acusações. Em seu testemunho durante o julgamento de 2023, Carroll, que foi colunista e apresentadora de talk show, descreveu como um encontro amigável na primavera de 1996 se transformou em um ataque violento no provador da loja de luxo Bergdorf Goodman, localizada em frente à Trump Tower.
Por se tratar de um caso civil, a condenação de Trump não resultou em pena de prisão, mas sim na obrigação de pagar US$ 5 milhões (aproximadamente R$ 26,4 milhões) à escritora como indenização pelo abuso sexual e difamação.
Novas Condenações e a Batalha Legal Continua
A disputa legal entre Carroll e Trump não se encerrou com o veredito de 2023. Em novembro do mesmo ano, os advogados do ex-presidente apresentaram um recurso à Suprema Corte, argumentando que a condenação inicial foi sustentada por decisões processuais consideradas “indefensáveis”, que permitiram aos advogados de Carroll apresentar “provas de caráter altamente inflamadas”.
Em 2024, Trump enfrentou um segundo julgamento de difamação movido por Carroll, que resultou em uma nova condenação. Este segundo processo decorreu de comentários feitos por Trump em 2019, após a escritora publicar suas acusações em um livro de memórias. Desta vez, o ex-presidente foi sentenciado a pagar outros US$ 83,3 milhões (cerca de R$ 440,5 milhões) em indenização. Embora Trump não tenha comparecido ao julgamento de 2023, ele testemunhou brevemente neste segundo processo.
A Defesa de Trump e a Narrativa da "Farsa Política"
Desde o início das acusações, a defesa de Donald Trump tem negado veementemente qualquer má conduta. Seus advogados, Smith e coadvogados, afirmam que o ex-presidente “negou clara e consistentemente que esse suposto incidente tenha ocorrido”. Eles ressaltam a ausência de evidências físicas ou de DNA corroborando a história de Carroll, assim como a falta de testemunhas oculares, gravações em vídeo, boletim de ocorrência ou investigação policial inicial para as alegações de estupro.
A equipe jurídica de Trump classificou as alegações de Carroll como uma “farsa politicamente motivada”. Além disso, criticaram o juiz do caso, Lewis A. Kaplan, acusando-o de distorcer as regras federais de evidências para favorecer as “afirmações implausíveis e não comprovadas” da escritora, evidenciando a intensidade da batalha judicial e retórica em torno do caso.
Impacto e Desdobramentos Futuros
A abertura de uma investigação criminal contra E. Jean Carroll pelo Departamento de Justiça sob a administração de Trump, especialmente após as condenações civis do ex-presidente, adiciona uma camada de complexidade e polarização ao caso. Este movimento sugere uma escalada nas ações contra aqueles que confrontaram o ex-presidente, levantando questões sobre o uso de recursos governamentais em meio a disputas pessoais e políticas de alto perfil. Os desdobramentos desta investigação e os recursos nos processos civis certamente continuarão a ser observados de perto, dada a sua relevância jurídica e o impacto nas esferas política e pública.
Fonte: https://g1.globo.com