Em um cenário global de crescentes desafios climáticos, mulheres de diversos recantos do Brasil unem forças em uma poderosa rede de apoio e articulação. Batizado de Programa Defensoras por Defensoras, esta iniciativa do Observatório do Clima congrega 36 ativistas na linha de frente da defesa ambiental e da justiça climática, conectando suas histórias de vida através do cuidado com as pessoas, o meio ambiente e a memória de seus territórios. O programa não apenas fomenta a troca de vivências e o compartilhamento de desafios, mas também oferece formações essenciais para fortalecer a luta em suas comunidades.
A Luta Por Territórios Vivos: Vozes da Resiliência
As integrantes do programa Defensoras por Defensoras representam a pluralidade dos biomas e das realidades sociais brasileiras. Suas trajetórias, embora distintas, convergem na urgência de proteger os ecossistemas e garantir um futuro mais justo. Ao longo do país, essas mulheres enfrentam desde a degradação urbana e a especulação imobiliária até o desmatamento massivo e a luta pela valorização dos saberes ancestrais.
Recife: A Transformação de Caranguejo Tabaiares
Na capital pernambucana, Sara Marques personifica a resistência de Caranguejo Tabaiares, uma comunidade que outrora pulsava com a vida de pescadores e marisqueiras. Nascida e criada às margens de um braço do Rio Capibaribe, Sara testemunhou a transformação de seu lar, que de santuário natural se tornou palco de um crescimento urbano desordenado. O rio, antes abundante em camarões, siris, aratus e cavalos-marinhos, hoje está canalizado e improdutivo, enquanto a pressão imobiliária ameaça a existência da própria comunidade. A memória afetiva da natureza, onde a saída dos caranguejos indicava a chuva, confronta a realidade de uma "comunidade pesqueira descaracterizada", onde a ilha virou istmo e a diversidade de espécies diminuiu drasticamente.
Santa Catarina: Restaurando a Mata Atlântica
No extremo sul do Brasil, Mirian Prochnow sentiu o chamado à ação quando presenciou a devastação da Mata Atlântica que embalou sua infância. O choque de ver centenas de caminhões carregados com a floresta nativa a impulsionou, há 40 anos, a cofundar a Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida (Apremavi). O que começou com 18 mudinhas no quintal de casa transformou-se em um dos maiores viveiros de restauração do país, com capacidade para produzir mais de um milhão de mudas por ano, abrangendo 200 espécies diferentes da Mata Atlântica, demonstrando um compromisso incansável com a recuperação florestal.
Pará: O Ativismo Indígena e a Interseccionalidade Climática
Integrando as Defensoras por Defensoras, Valdineia Sauré, conhecida como Val Munduruku, traz a perspectiva dos povos originários para o debate climático. Nascida em Jacareacanga, no Pará, sua militância vai além do contexto de aldeia, conectando as lutas indígenas do seu território com os estudos universitários. Val entende que a proteção da terra, os impactos das mudanças climáticas e as desigualdades de gênero estão intrinsecamente ligados. Para ela, o ativismo emerge da união entre as causas territoriais, a academia, o movimento de mulheres e a juventude, forjando uma compreensão abrangente de que os problemas locais são parte de um panorama global, e as soluções demandam uma visão integrada.
A Força da Articulação e da Comunicação
A união feminina no programa Defensoras por Defensoras transcende o mero apoio mútuo; ela se torna uma plataforma para amplificar vozes e construir uma comunicação eficaz que rompe as barreiras dos espaços já conquistados. A rede fortalece as capacidades individuais de cada mulher, permitindo que elas enfrentem os desafios sociais, ambientais e de gênero com maior resiliência. A troca de conhecimentos e as formações oferecidas capacitam-as a articular suas mensagens de forma mais impactante, essencial para sensibilizar não apenas as comunidades diretamente afetadas, mas também um público mais amplo sobre os perigos da crise climática e a urgência de agir.
O Legado do Cuidado e a Visibilidade Necessária
O 'cuidado' é a pedra angular que fundamenta a atuação dessas defensoras. É o cuidado com a natureza, com as futuras gerações, com a memória e a identidade de seus territórios. As mulheres, em particular as pobres e indígenas, têm comunicado os impactos devastadores das mudanças climáticas há tempos, mas muitas vezes suas vozes são marginalizadas. A rede Defensoras por Defensoras busca reverter essa invisibilidade, ao destacar a sabedoria e a experiência dessas lideranças. Recentemente, uma publicação lançada pelo programa serve como um testemunho coletivo de suas lutas, conquistas e do conhecimento inestimável que compartilham, solidificando seu papel como agentes de transformação e inspiração para a justiça socioambiental no Brasil.