O cenário eleitoral de 2026 tem sido palco de uma crescente preocupação com a disseminação de conteúdo falso gerado por Inteligência Artificial (IA). Um levantamento recente do projeto VigIA, conduzido pela agência de checagem Lupa, revelou a publicação de pelo menos 554 vídeos e imagens do tipo deepfake nas redes sociais durante a campanha para o primeiro turno. Essa proliferação ocorre a despeito da proibição expressa pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que considera tais conteúdos uma ameaça à integridade do processo democrático e prevê sanções severas, incluindo a cassação de candidatura ou mandato, caso a manipulação seja caracterizada como propaganda política enganosa e verossímil.
A Ascensão dos Deepfakes como Ferramenta de Desinformação
O relatório do projeto VigIA, divulgado nesta quinta-feira, 1º de dezembro, confirmou que os deepfakes representam a principal modalidade de conteúdo criado ou modificado por IA no período eleitoral, correspondendo a alarmantes 60% do total de 920 publicações coletadas entre 16 de agosto e 28 de setembro. Esses conteúdos, que utilizam a IA para manipular a imagem e a voz de pessoas reais, as fazem parecer dizer frases ou realizar atos que nunca ocorreram, visando enganar o eleitorado. Entre os exemplos mais comuns identificados, destacam-se vídeos de jornalistas anunciando notícias fictícias e celebridades supostamente manifestando apoio a candidatos específicos, de forma completamente falsa.
O Desafio da Autoria Anônima e a Falta de Sinalização
Um dos maiores obstáculos à fiscalização e aplicação da lei eleitoral reside na autoria da maioria desses deepfakes. Das 554 publicações irregulares, 525 foram realizadas por usuários comuns, muitos deles operando sob anonimato. Essa realidade, conforme apontado pela pesquisadora Beatriz Farrugia, responsável pelo relatório, exige que a Justiça Eleitoral aprofunde a colaboração com as plataformas digitais para identificar os responsáveis por trás dessas contas. Além disso, a legislação eleitoral permite o uso de IA em peças de campanha, desde que devidamente sinalizadas. Contudo, dos 920 conteúdos que empregaram a tecnologia, apenas 371 (cerca de 40%) estavam rotulados. Das 549 publicações irregulares por falta de sinalização, 75 foram veiculadas por candidatos ou partidos, passíveis de sanções.
VigIA em Detalhes: A Metodologia de Monitoramento da IA
O projeto VigIA, em colaboração com o Laboratório de Inteligência Artificial (Recod.ai) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), implementa uma metodologia robusta para identificar o uso de IA na comunicação política. Ao longo do período analisado, foram coletados 1.941 conteúdos político-eleitorais suspeitos. Desses, 972 imagens e vídeos foram submetidos a uma análise minuciosa, resultando na confirmação de 920 casos de uso de IA. A investigação emprega três ferramentas distintas de detecção de IA, cujos resultados são subsequentemente validados por pesquisadores especializados. Além dos deepfakes, o monitoramento também abrange 'conteúdos sintéticos', onde a IA é utilizada para criar ou modificar aspectos da publicação sem, no entanto, imputar falas ou atos irreais a uma pessoa real.
A Nova Realidade da Comunicação Política e Seus Propósitos
Os números compilados pelo VigIA demonstram que a Inteligência Artificial transcendeu o status de fenômeno isolado, consolidando-se como parte integrante da comunicação política diária. Cristina Tardáguila, fundadora e gerente de Inteligência e Formação da Agência Lupa, ressalta que encontrar “quase um conteúdo com IA por hora” e constatar a ausência de sinalização na maioria dos casos expõe a magnitude do desafio para eleitores e órgãos fiscalizadores. Analisando as finalidades desses conteúdos, a promoção de candidaturas emergiu como a intenção mais frequente, presente em 414 dos 920 casos (45%). No entanto, um quarto das publicações utilizou a IA para ataques diretos a candidatos ou outras figuras públicas, enquanto uma proporção similar foi empregada para fins de humor ou sátira.
Focos Geográficos e Principais Personagens na Desinformação por IA
A análise do conteúdo revelou um foco predominante no cenário nacional, com forte ênfase nas eleições presidenciais. O atual presidente e candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), foi a figura pública mais retratada, aparecendo em 379 publicações. Em segundo lugar, com 190 aparições, ficou Flávio Bolsonaro (PL), adversário político. No que tange ao conteúdo envolvendo Lula, 39% das publicações tinham caráter humorístico ou satírico, enquanto 34% visavam atacar sua candidatura. Para Flávio Bolsonaro, 40% das peças buscavam favorecê-lo e 28% se enquadravam em humor ou sátira. A predominância de usuários comuns como principais publicadores se manteve, sendo responsáveis por 47% das autorias identificadas no relatório.
A crescente integração da Inteligência Artificial no processo eleitoral de 2026 representa um marco na comunicação política, mas também um desafio sem precedentes para a integridade democrática. A profusão de deepfakes e a ausência de transparência sobre o uso da IA exigem não apenas uma adaptação rápida das ferramentas de fiscalização, mas também uma conscientização contínua do eleitorado. As constatações do projeto VigIA sublinham a urgência de fortalecer a regulamentação, a detecção e a educação pública para preservar a confiança e a autenticidade nas campanhas eleitorais futuras.