O último debate televisionado antes do encerramento da campanha eleitoral, transmitido pela TV Globo, foi palco de um acalorado confronto entre o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL). O embate, marcado por intensas trocas de acusações e a defesa veemente de propostas, evidenciou as profundas divergências entre os candidatos, que abordaram temas desde questões pessoais e trabalhistas até políticas sociais, economia e saúde pública, em uma disputa que manteve a atenção do eleitorado.
A Polêmica dos 'Nove Dedos' e as Retratações
Um dos momentos mais tensos da noite ocorreu quando Flávio Bolsonaro, em uma crítica ao governo, declarou que o presidente 'dá com uma mão e tira com nove dedos'. A fala, que aludiu à perda do dedo mínimo da mão esquerda de Lula em um acidente de trabalho como torneiro mecânico aos 17 anos, em 1964, provocou uma reação indignada do petista. Lula rebateu a ofensa, destacando sua trajetória no mundo do trabalho e rejeitando ser chamado de 'nove dedos' por um 'miliciano', exigindo desculpas diante de milhões de trabalhadores que sofrem acidentes por irresponsabilidade patronal.
Flávio Bolsonaro prontamente pediu desculpas, afirmando não ter tido a intenção de ofender. Contudo, o senador não hesitou em retomar os ataques, questionando Lula sobre o aumento da população em situação de rua durante seu governo e cobrando desculpas à população. O candidato do PL mencionou que o número de pessoas em situação de rua teria dobrado, enquanto dados do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua indicam um aumento de 55% em relação a 2022, totalizando 365,8 mil pessoas em dezembro de 2023. Pesquisadores ressaltam que parte desse crescimento pode estar ligada a aprimoramentos metodológicos na contagem e inclusão de vulneráveis em políticas sociais, não necessariamente a um dobro de novas pessoas nesta condição. Flávio também repudiou a insinuação de que seria 'miliciano'.
Divergências sobre Políticas Sociais
No campo das políticas sociais, Lula confrontou Flávio Bolsonaro sobre seu voto contrário à ampliação da licença-maternidade quando deputado estadual no Rio de Janeiro. Flávio reconheceu o voto e justificou sua mudança de postura, afirmando que, após o casamento e o nascimento de suas duas filhas, compreendeu a importância da mãe presente nos primeiros dias de vida do filho, defendendo inclusive a possibilidade de mais de 180 dias de licença. Lula, por sua vez, criticou a justificativa como evasiva e questionou a forma como o adversário se referiu ao Bolsa Família em postagens antigas, onde o programa foi chamado de 'bolsa-farelo', qualificando a atitude como uma falta de respeito com os mais necessitados. Em resposta, Flávio Bolsonaro assegurou o compromisso de seu plano de governo em manter e expandir os benefícios sociais, incluindo o Bolsa Família.
O Debate Econômico: Endividamento e Dívida Pública
A economia foi outro ponto de grande atrito. Flávio Bolsonaro interpelou Lula sobre o crescente endividamento das famílias brasileiras e a dívida pública, que ele estimou em R$ 11 trilhões (referência à Dívida Bruta do Governo Geral, medida pelo Banco Central), atribuindo ao governo os juros elevados e as dificuldades financeiras da população. O candidato do PL apresentou como proposta a utilização da Caixa Econômica Federal para adquirir dívidas de bancos e refinanciá-las para os cidadãos.
Lula rebateu, argumentando que o problema do endividamento está intrinsecamente ligado à política de juros do Banco Central e defendeu o crescimento econômico como a solução primordial para a redução da dívida. Além disso, o presidente afirmou que a iniciativa de renegociar dívidas já havia sido encaminhada por seu governo ao Senado Federal, mencionando operações anteriores que totalizaram R$ 15 bilhões e beneficiaram 4,5 milhões de pessoas.
Saúde Pública: SUS e Gestão da Pandemia
A discussão sobre saúde pública também ganhou destaque. Lula questionou Flávio Bolsonaro sobre declarações atribuídas a membros de sua equipe econômica que sugeriam a ausência de investimentos no Sistema Único de Saúde (SUS). O presidente reiterou a importância vital do SUS como o maior plano de saúde para países com mais de 100 milhões de habitantes, criticando a gestão da pandemia de COVID-19 durante o governo Bolsonaro e aludindo ao alto número de mortes registradas.
O debate, ao final, consolidou-se como um momento decisivo para os eleitores, que puderam observar não apenas a troca de acusações, mas também a apresentação de visões de governo distintas em áreas cruciais para o futuro do país.