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COP15: Povos Tradicionais Conquistam Reconhecimento de Saberes Ancestrais e Nova Voz na Governança Ambiental

© Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

A 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Espécies Migratórias de Animais Silvestres (COP15), palco de debates cruciais para a biodiversidade global, testemunhou um marco histórico na defesa dos conhecimentos ancestrais. Representantes de 28 povos e comunidades tradicionais de diversas regiões do Brasil apresentaram um pleito formal ao presidente da conferência, João Paulo Capobianco, exigindo o reconhecimento de seus saberes milenares como pilares fundamentais para a proteção de habitats e rotas migratórias, além de oferecerem uma base científica para as decisões internacionais.

A Demanda por Incorporação na Convenção

O ofício entregue ao presidente da COP15 não apenas solicitava o reconhecimento da intrínseca ligação entre os saberes tradicionais e a conservação ambiental, mas detalhava a forma desse reconhecimento. Os povos e comunidades pediram que sua visão de mundo fosse formalmente inserida como um item no texto da própria Convenção sobre Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS). Adicionalmente, foi pleiteada a criação de um espaço de participação estrutural dentro do secretariado responsável pela governança do tratado internacional, garantindo voz ativa e contínua nos processos decisórios que afetam diretamente seus territórios e modos de vida.

Apoio Brasileiro e Aliança Internacional Pela Causa

João Paulo Capobianco acolheu a solicitação, classificando-a como uma demanda pertinente e necessária. Ele assegurou que o Brasil, na sua liderança dos debates nos próximos três anos, trabalhará para que a proposta se materialize em uma solicitação formal. Demonstrando a proatividade do país, Capobianco revelou que o Brasil já elaborou uma declaração presidencial, proposta pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Paraguai e Bolívia, que sublinha claramente o papel vital dos povos indígenas e comunidades tradicionais na conservação. Este documento já conta com a subscrição de diversos países, fortalecendo a iniciativa e criando um precedente favorável, similar ao que o Brasil já havia estabelecido na Convenção da Biodiversidade em Cali.

A Voz Potente dos Guardiões da Natureza na Plenária

A formalização do pedido foi precedida por um momento de grande impacto. Edinalda Nascimento, mulher pantaneira e representante do Conselho Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais, pronunciou-se em nome dos 28 segmentos no principal espaço de negociações da COP15. Sua intervenção, um evento inédito para muitos que nunca haviam acessado a restrita Zona Azul da convenção, ecoou por três minutos e capturou a atenção de diplomatas, cientistas e representantes de organizações sociais, que pausaram as negociações para ouvi-la. Edinalda enfatizou o papel dos povos tradicionais como um elo essencial na conexão com a natureza, crucial para a conservação das espécies migratórias e para a garantia de seus meios de subsistência e continuidade cultural. A imediata manifestação de apoio de outros países à avaliação e implementação da solicitação demonstrou a ressonância global da mensagem.

Articulação Governamental e o Diálogo Ampliado

A possibilidade de os povos tradicionais se manifestarem na plenária da COP15 foi resultado de uma articulação estratégica entre diversos ministérios do governo brasileiro. Cláudia de Pinho, diretora da Secretaria Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais e Desenvolvimento Rural Sustentável do Ministério do Meio Ambiente, explicou que foi realizado um trabalho de 'pré-COP', aproximando esses grupos dos processos técnicos da conferência. Esse esforço não apenas atendeu à demanda por participação e compreensão dos segmentos, mas também abriu um debate sem precedentes para o secretariado da CMS, sobre a relevância dos modos de vida tradicionais para a temática das espécies migratórias.

A Ciência Ancestral Encontra a Pesquisa Moderna

A importância dos conhecimentos tradicionais na COP15 no Brasil vai além das reivindicações, materializando-se em documentos científicos. Capobianco destacou que o reconhecimento é visível em estudos lançados para subsidiar as decisões das nações. Um exemplo notável é o relatório 'Avaliação Global dos Peixes Migratórios de Água Doce', lançado no início da conferência. Este documento exemplar, assinado conjuntamente por cientistas e integrantes de povos tradicionais, ilustra a integração da sabedoria ancestral com a pesquisa contemporânea, oferecendo uma base mais robusta e holística para as políticas de conservação.

A COP15, com a mobilização e o reconhecimento dos povos tradicionais, marca um passo significativo para uma governança ambiental mais inclusiva e eficaz. A integração de saberes ancestrais nos textos das convenções e nos processos decisórios não só enriquece a ciência da conservação, mas também valida a atuação fundamental daqueles que há séculos protegem a biodiversidade, prometendo um futuro onde a colaboração entre ciência e tradição é a chave para a sustentabilidade global.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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