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Cesariana Aumenta Risco de Câncer de Placenta, Aponta Estudo da UFRJ e Harvard

© Tomaz Silva/Agência Brasil

Um estudo inédito liderado por pesquisadores da Maternidade Escola da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) revelou uma preocupante associação: mulheres que passaram por cesariana apresentam um risco 45% maior de desenvolver neoplasia trofoblástica gestacional (NTG). Este tipo raro de câncer se origina de células da placenta e se manifesta no útero, representando a consequência mais grave da mola gestacional. A descoberta, fruto de uma colaboração internacional, lança luz sobre um novo fator de risco em um país com elevadas taxas de partos cirúrgicos.

Desvendando a Neoplasia Trofoblástica Gestacional

A neoplasia trofoblástica gestacional é o desfecho mais severo da doença trofoblástica, amplamente conhecida como mola gestacional. Essa condição peculiar surge de uma fertilização anômala entre óvulos e espermatozoides, resultando na formação de uma estrutura placentária irregular. Em alguns casos, essa anomalia pode não incluir um feto (mola completa) ou apresentar um feto inviável (mola parcial).

Estima-se que até 20% das molas gestacionais podem evoluir para o câncer de placenta, caracterizando a NTG. No Brasil, a incidência da doença trofoblástica varia entre um caso a cada 200 a 400 gestantes, com aproximadamente 2,9 mil novos registros de neoplasia por ano. Fatores como a mola completa, idade materna acima de 40 anos, níveis muito elevados do hormônio HCG e histórico de molas anteriores ou cistos ovarianos já eram previamente reconhecidos como elevadores de risco para o desenvolvimento da neoplasia.

A Metodologia e os Resultados da Pesquisa

A inspiração para investigar a correlação entre cesarianas e o câncer de placenta surgiu de um estudo similar realizado na Coreia do Sul, mas com uma amostra reduzida. A Maternidade Escola da UFRJ, que abriga o terceiro maior centro de pesquisa e atendimento de doença trofoblástica gestacional do mundo, atende cerca de 80 pacientes com mola semanalmente. Essa vasta casuística permitiu que a equipe brasileira, liderada pela pesquisadora Gabriela Paiva, realizasse uma avaliação com maior precisão e relevância para o cenário nacional.

A pesquisa, desenvolvida em parceria com o Centro de Doença Trofoblástica da Nova Inglaterra, ligado à Universidade de Harvard (EUA), analisou dados de 2.904 pacientes atendidas entre 2002 e 2022. Desse total, 83,9% não possuíam histórico de cesariana, enquanto 468 mulheres haviam sido submetidas a pelo menos um parto cirúrgico. Os resultados foram contundentes: 26,5% das mulheres com histórico de cesariana desenvolveram o câncer, em contraste com 20,8% daquelas sem essa cirurgia prévia. A análise cuidadosa controlou outros fatores que poderiam influenciar o desfecho, confirmando a cesariana como um risco independente para a NTG.

Mecanismos Propostos para o Risco Elevado

Os pesquisadores levantaram uma hipótese principal para explicar o aumento do risco: a intervenção cirúrgica no útero durante a cesariana. O corte e a consequente cicatriz uterina podem desencadear uma série de alterações locais. Acredita-se que o procedimento desregule o sistema imunológico feminino na região, além de provocar o remodelamento dos vasos sanguíneos e a formação de fibrose. Conforme explica Gabriela Paiva, a cicatriz da cesárea cria uma área de fragilidade no útero, funcionando como uma 'porta de entrada' que confere à mola maior capacidade de invasão, potencializando sua evolução para o câncer.

Implicações para a Saúde Materna no Brasil

O achado adquire particular importância no contexto brasileiro, que se destaca pelas altas taxas de cesariana em nível mundial. Enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) preconiza que cerca de 15% dos nascimentos ocorram por via cirúrgica, essa proporção atinge alarmantes 55% no Brasil. O coordenador do ambulatório e orientador da pesquisa, Antônio Braga, enfatiza que a neoplasia trofoblástica gestacional pós-molar deve ser adicionada à lista de possíveis consequências de longo prazo do parto cesáreo prévio.

Esta nova consideração se soma a outros desfechos adversos já conhecidos, como o risco de ruptura uterina, o espectro da placenta acreta e o parto prematuro. Embora a cesariana seja uma cirurgia vital e salvadora de vidas em diversas situações, os autores ressaltam a necessidade de uma decisão consciente sobre sua realização. O estudo projeta que uma redução de 20 pontos percentuais na taxa de cesarianas do país, atingindo 35%, poderia potencialmente evitar aproximadamente 177 casos de câncer por ano, o que sublinha a relevância desta pesquisa para a saúde pública.

A pesquisa reforça a importância de considerar o histórico obstétrico, incluindo o tipo de parto, na avaliação de riscos para condições como a NTG. Este conhecimento permite uma abordagem mais informada e preventiva, tanto para os profissionais de saúde quanto para as mulheres, em busca de escolhas que promovam a saúde materna a longo prazo.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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