A corrida presidencial no Peru ganhou um novo e dramático capítulo na última sexta-feira, a apenas dois dias do segundo turno eleitoral. A justiça do país decidiu enviar a julgamento o candidato da esquerda, Roberto Sánchez, sob a acusação de declaração falsa de financiamento de seu partido, Juntos pelo Peru, um incidente datado de aproximadamente seis anos. A decisão judicial adiciona uma camada de complexidade a uma eleição já intensamente disputada, onde Sánchez enfrenta a direitista Keiko Fujimori.
Embora a ordem de julgamento não vá impactar a realização do pleito neste domingo, uma vez que cabe apelação, o timing da medida é notável. Além disso, a Constituição peruana prevê que, caso vença as eleições, Sánchez, um congressista e ex-ministro de 57 anos, passaria a ter imunidade, o que poderia alterar o curso do processo legal.
Detalhes da Ação Judicial e a Acusação Formal
A determinação judicial foi proferida pelo juiz Adolfo Farfán, após uma audiência virtual de dois dias, culminando na decretação de 'auto de persecução penal' e na declaração de 'mérito para o julgamento oral' contra Roberto Sánchez Palomino. O Ministério Público peruano, que solicitou uma pena de cinco anos e quatro meses de prisão, manifestou-se de acordo com a resolução.
A defesa de Sánchez rapidamente anunciou que apresentará um recurso, para o qual dispõe de uma semana. A acusação formal, sustentada pelo Ministério Público, aponta para inconsistências nos informes financeiros do partido Juntos pelo Peru, especificamente em relação às campanhas para eleições regionais e municipais realizadas entre 2018 e 2020. Alega-se que Sánchez teria recebido mais de 57.000 dólares (aproximadamente R$ 292 mil) em contribuições de membros de seu grupo político, destinadas a atividades partidárias, que não teriam sido devidamente declaradas ao Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE).
A Reação de Sánchez e o Discurso de Campanha
Até o momento da decisão, Roberto Sánchez não havia se pronunciado publicamente sobre o veredito. Contudo, em abril, o político utilizou as redes sociais para se manifestar sobre o processo, descrevendo as alegações como uma 'mentira' e afirmando que o caso havia sido arquivado em 2015 por um tribunal, devido à falta de provas sobre o suposto crime de fraude.
Na reta final de sua campanha, Sánchez tem se posicionado como a voz dos setores mais vulneráveis e das áreas rurais do Peru, em um cenário eleitoral marcado pela instabilidade política e o aumento da criminalidade. Ele também tem sido um crítico vocal de sua oponente, Keiko Fujimori, a quem acusa de integrar uma 'máfia' política responsável pela constante turbulência no país. Desde 2016, o Peru teve oito presidentes, com quatro sendo destituídos pelo Congresso, onde o partido Força Popular, de Fujimori, detém considerável influência.
Propostas para a Estabilidade Política e Relações Internacionais
Distanciando-se de apelos por mudanças radicais que poderiam alarmar eleitores mais conservadores, Sánchez tem enfatizado a necessidade de consenso e estabilidade. Ele defende a recuperação do equilíbrio e da separação de poderes, propondo a regulamentação do artigo constitucional que permite a destituição presidencial por 'incapacidade moral permanente', uma cláusula usada indiscriminadamente pelo Congresso para remover presidentes. Segundo Sánchez, essa medida seria crucial para 'parar esse desgoverno que começou no ano de 2016'.
No âmbito internacional, o candidato esquerdista expressou o desejo de manter relações 'respeitosas' com os Estados Unidos, independentemente de quem ocupe a Casa Branca. Em declarações à AFP, ele reforçou a importância da 'boa vizinhança' e dos laços históricos entre Peru e EUA, indicando que essa será a vocação de seu eventual governo, mesmo em relação a figuras como o ex-presidente Donald Trump.
Perspectivas para o Segundo Turno
Com a decisão judicial pairando sobre o processo eleitoral, o segundo turno no Peru se configura como um dos mais imprevisíveis da história recente do país. A disputa entre a esquerda populista de Sánchez e a direita de Fujimori, herdeira de um legado político controverso, define não apenas o futuro da nação, mas também testará a resiliência das instituições democráticas peruanas diante de desafios legais e políticos simultâneos. A voz das urnas, no próximo domingo, terá um peso ainda maior, decidindo não só o próximo presidente, mas também o destino de um país em constante busca por estabilidade.