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Caminhada do Silêncio em São Paulo: Um Grito Contra a Violência Estatal e Pela Memória Democrática

© Paulo Pinto/Agencia Brasil

A cidade de São Paulo foi palco, neste domingo (29), da 6ª edição da Caminhada do Silêncio pelas Vítimas de Violência do Estado. O evento reuniu centenas de pessoas, incluindo familiares e ativistas de direitos humanos, em um percurso carregado de simbolismo, que partiu de um antigo centro de repressão da ditadura militar em direção a um monumento que celebra a memória dos mortos e desaparecidos políticos. A manifestação teve como objetivo central não apenas relembrar os crimes do passado autoritário, mas também denunciar a persistência da violência estatal no presente e fortalecer os pilares da democracia.

Memória Viva e a Trajetória Simbólica

A concentração para a caminhada teve início às 16h, em frente ao antigo prédio do DOI-Codi/SP, na rua Tutóia. Este local, que funcionou como um dos principais centros de tortura e repressão durante a ditadura militar brasileira (1964-1985), serviu como um poderoso ponto de partida para a jornada. Sob a organização do Movimento Vozes do Silêncio, uma iniciativa conjunta do Instituto Vladimir Herzog e do Núcleo de Preservação da Memória Política, o cortejo seguiu pelas ruas da zona sul, culminando no Monumento em Homenagem aos Mortos e Desaparecidos Políticos, situado no Parque Ibirapuera. O trajeto foi acompanhado por uma escolta da polícia militar, que circulava entre os manifestantes, enquanto o silêncio preenchia o espaço, amplificando a mensagem de memória e resistência.

Legado da Ditadura e a Persistência da Violência Estatal

Com o lema “aprender com o passado para construir o futuro”, a Caminhada do Silêncio buscou traçar um elo entre os horrores da ditadura militar e as manifestações contemporâneas de violência de Estado. Lorrane Rodrigues, coordenadora da área de Memória, Verdade e Justiça do Instituto Vladimir Herzog, ressaltou a importância de analisar os impactos duradouros do período ditatorial, desmistificando a percepção comum de que se trata de um capítulo isolado da história. Ela enfatizou que a compreensão das heranças da ditadura é crucial para moldar um futuro mais justo, desafiando a noção de que o que aconteceu naquele período não precisa mais ser debatido, e, assim, buscando uma reflexão mais profunda sobre como as estruturas do passado ainda influenciam o presente.

A Luta por uma Democracia Plena e a Importância das Recomendações

Rodrigues salientou que, embora o Brasil tenha redemocratizado, a construção democrática ainda é insuficiente e não garante igualdade para uma parcela significativa da população. Para ela, uma ferramenta vital para alcançar resultados no campo da memória, verdade e justiça reside no cumprimento das recomendações da Comissão Nacional da Verdade (CNV). Das 49 recomendações destinadas ao Estado brasileiro, que abordam diversas esferas para prevenir futuras violações, poucas foram totalmente implementadas desde seu lançamento. O Instituto Vladimir Herzog monitora bienalmente o progresso dessas recomendações, constatando avanços lentos e em pequena escala, o que reforça a urgência de ações mais concretas para uma verdadeira transformação social e institucional.

O Clamor Coletivo Contra o Autoritarismo e Ameaças à Democracia

Rogério Sotilli, diretor executivo do Instituto Vladimir Herzog, contextualizou a origem da Caminhada do Silêncio como uma resposta coletiva ao autoritarismo e às tentativas de silenciar a história. Ele destacou que a herança de impunidade deixada pela ditadura militar continua a alimentar a violência estatal que o país enfrenta. Em um cenário onde a defesa do Estado democrático de direito tem sido muitas vezes delegada a instituições de cúpula, Sotilli sublinhou a necessidade de a sociedade civil se manifestar nas ruas, demonstrando sua força e resgatando o sentimento original da mobilização. Mais de 30 organizações da sociedade civil, movimentos sociais e entidades de direitos humanos uniram-se a esta iniciativa, reforçando o coro pela justiça e pela memória.

Novas Perspectivas Jurídicas para a Justiça

Um ponto de destaque na edição deste ano foi a menção à possibilidade, defendida pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), de afastar a aplicação da Lei da Anistia em casos que envolvem crimes permanentes, como a ocultação de cadáveres. Esta perspectiva jurídica abre caminho para que responsáveis por violações de direitos humanos da ditadura, que se prolongam no tempo, possam ser responsabilizados, oferecendo uma nova esperança para os familiares de desaparecidos e para a busca por justiça completa, que tem sido um dos pilares das reivindicações do movimento.

Ao final do evento, o manifesto da caminhada reverberou as vozes dos participantes: “Hoje, caminhamos em silêncio, mas não em ausência. Nosso silêncio é a presença viva, é memória que resiste, é a voz que ecoa nos passos de cada pessoa que se recusa a esquecer.” A mensagem reforça que, embora o ponto de partida tenha sido um local de dor e o destino um monumento à lembrança, a luta pela memória, verdade e justiça não pertence apenas ao passado. Ela é uma resposta contínua às ameaças autoritárias que se transformam, mas persistem, exigindo vigilância e engajamento constantes para a construção de uma democracia verdadeiramente igualitária e protetora para todos os cidadãos.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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