Juscelino Kubitschek, o visionário por trás de Brasília, confessou a dificuldade de encontrar palavras que pudessem traduzir a magnitude e o sentimento que a nova capital evocava. Mais de seis décadas depois, a essência singular de Brasília continua a desafiar a expressão verbal, mas inspira uma rica tapeçaria de manifestações artísticas que a capturam em outras linguagens. Da mímica ao ritmo e à moda, artistas diversos mergulham na 'candanguice' e na complexidade da cidade para revelar sua alma multifacetada, tecendo narrativas que ressoam com a história, as desigualdades e a efervescência cultural de uma metrópole única.
A Poesia do Movimento: Mímica e Engajamento Social na Capital
Miqueias Paz, um mímico de 62 anos, utiliza a linguagem universal do corpo para expressar as nuances de Brasília, cidade que o acolheu ainda criança. Sua arte, que floresceu no teatro social da adolescência, tem sido um espelho das experiências periféricas e da jornada dos imigrantes que construíram a capital. Desde os anos 80, com espetáculos como “Sonho de um Retirante” e “História do Homem”, Paz dedicou-se a encenar as realidades da cidade, inclusive desafiando a censura da ditadura militar.
Desenvolvendo seu trabalho em Taguatinga, Miqueias expandiu sua atuação dos palcos para as ruas e ocupações, usando o olhar e o gesto para conscientizar sobre direitos e denunciar microviolências, como a frequente abordagem policial que sofria. Sua arte tornou-se um reflexo visceral de suas vivências: o transporte público lotado, a escassez financeira, e a própria resiliência dos cidadãos. Em 1984, eternizou um gesto de coração na rampa do Congresso, celebrando o fim da ditadura e consolidando sua voz como figura importante nos movimentos sociais. Atualmente, Miqueias Paz dirige o Mimo, seu próprio teatro na comunidade 26 de Setembro, um espaço dedicado a acolher e dar visibilidade a artistas ambulantes da cidade.
Samba Pisado: Criando Tradições para a Cidade Inventada
A identidade de Brasília também encontra eco no ritmo original do 'samba pisado', criado pelo pernambucano Tico Magalhães e seu grupo 'Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro'. Profundamente impactado pelo Cerrado e pela história da capital, Magalhães buscou inventar uma 'tradição' para essa cidade tão singularmente planejada e construída. O 'samba pisado' não é apenas um ritmo; ele vem acompanhado de uma mitologia própria, com figuras e festejos que dão corpo a uma nova expressão cultural.
Inspirado em sonoridades nordestinas como o cavalo marinho, o maracatu de baque solto e de baque virado, o 'samba pisado' é uma fusão de diversas batidas, um 'pulso' que reflete a alma de Brasília. Tico Magalhães enfatiza que a capital, erguida sobre um território ancestral de povos indígenas e ponto de encontro de inúmeras culturas, é uma 'pequena diáspora brasileira'. O grupo 'Seu Estrelo' personifica essa confluência, celebrando como a cidade, ao reunir gente de muitos lugares, forja suas próprias tradições, onde 'a cidade inventa a gente e a gente inventa a cidade'.
Arquitetura em Tecido: A Moda que Veste Brasília
A grandiosidade arquitetônica de Brasília não se limita às suas construções; ela se transforma em arte vestível pelas mãos de um casal de estilistas radicados em regiões administrativas periféricas. Mackenzo, de 27 anos, de Samambaia, e Felipe Manzoli, de 29, de Planaltina, traduzem as linhas, curvas e planos da capital em coleções de moda. Felipe, que aprendeu a costurar com a avó desde os dez anos, e Mackenzo, que, além de músico, desenhava croquis inspirados na paisagem urbana observada da janela do ônibus, compartilham uma profunda paixão pela arquitetura brasiliense.
Com laços familiares que se estendem aos próprios construtores da cidade – tias de Mackenzo trabalharam com Juscelino Kubitschek – os estilistas veem na criação de uma peça de roupa um processo que ecoa o saber arquitetônico. Eles comparam o corpo humano a um 'terreno', exigindo uma 'engenharia da peça' que dialogue com a geometria da cidade, seja em suas superfícies retas ou curvilíneas. Essa abordagem não só homenageia a estética única de Brasília, mas também sublinha a criatividade que brota de suas comunidades, transformando a arquitetura funcional em expressão artística.
Brasília, em sua complexidade e singularidade, continua a ser uma musa inesgotável para artistas que buscam transcender a linguagem verbal. Seja através do silêncio eloquente do mímico Miqueias Paz, que dá voz às experiências sociais, ou do ritmo inovador do 'samba pisado' de Tico Magalhães, que constrói novas tradições para uma cidade em constante reinvenção, ou ainda da moda arquitetônica de Mackenzo e Felipe Manzoli, que veste a cidade em tecido, a capital se revela em múltiplas dimensões. Essas expressões artísticas não apenas celebram Brasília, mas também enriquecem sua narrativa, provando que a alma de uma metrópole pode ser plenamente compreendida e sentida muito além do universo das palavras.