A arte tem o poder de tocar profundamente a memória e a trajetória individual, transformando percepções. Foi essa a experiência de Kaliane Martins, uma potiguar de 40 anos cuja primeira incursão profissional em um museu, o Sesi Lab em Brasília, a conectou inesperadamente a uma parte fundamental de sua história. De faxineira a agente de portaria, Kaliane viu seu passado com a costura e o bordado ressignificado pela monumental instalação “Bordaduras”, da renomada artista plástica Regina Silveira, que se destaca como um dos pontos altos do 25º Encontro Internacional de Arte e Tecnologia.
A Arte do Bordado: Conexões de Memória e História
A instalação “Bordaduras” ocupa 530 metros quadrados dos vidros do Sesi Lab com um vinil adesivo que reproduz agulhas e uma série de bordados em ponto cruz inacabados. Inaugurada para visitação pública nesta terça-feira (15), a obra despertou em Kaliane Martins, que aprendeu a bordar com a mãe e a avó, um forte sentimento de recordação. Para ela, as agulhas na obra evocaram não apenas a confecção de roupas para si e seus filhos, mas a própria tessitura de sua vida, uma jornada marcada por batalhas diárias.
A artista Regina Silveira, com sua vasta carreira internacional e aos 87 anos, professora emérita da USP, concebeu “Bordaduras” com o propósito de provocar reflexões. Ela contextualiza o bordado historicamente como uma ferramenta para a alfabetização feminina no Pré-Renascimento, quando mulheres bordavam letras em enxovais. Na sua própria trajetória artística, os bordados – sejam completos ou malfeitos – conectam-se a padrões gráficos que a artista vem explorando desde o novo milênio, com o auxílio de meios digitais para dialogar com diferentes arquiteturas. Os pontos incompletos em partes da instalação simbolizam a ideia de um processo contínuo, ainda em execução.
Silveira considera a obra intrinsecamente feminista e provocadora, um viés presente em trabalhos anteriores das décadas de 1980 e 1990 que abordavam a distorção de objetos cotidianos. A artista destaca a natureza “ilusionista” das agulhas representadas e a liberdade de interpretação que confere ao público, permitindo que cada pessoa encontre seus próprios significados.
Diálogos entre Arte e Tecnologia no Sesi Lab
Além de “Bordaduras”, o Sesi Lab também abriga, em seu interior, a obra “Dígito” de Regina Silveira, uma criação dos anos 1980 exibida em um painel de LED. A presença da artista se estende para o âmbito acadêmico, com ela ministrando a palestra inaugural do 25º Encontro Internacional de Arte e Tecnologia. Este evento, que se estende até domingo (20), é um fórum vibrante que explora a intersecção entre arte e tecnologia, com atividades distribuídas entre o Sesi Lab e o Museu Nacional de Brasília.
O encontro reúne 41 artistas e pesquisadores de diversas regiões do Brasil, apresentando obras e experimentos que ampliam as fronteiras da criação contemporânea. É um espaço dedicado a debates profundos sobre as novas linguagens e os desafios que emergem da interação entre as diversas formas de expressão artística e os avanços tecnológicos.
Perspectivas sobre Ancestralidade, Tecnologia e Futuro
A programação do 25º Encontro Internacional de Arte e Tecnologia destaca-se pela diversidade de temas e vozes. Entre os palestrantes, figuram nomes como Casé Angatu Xukuru Tupinambá, liderança indígena que aborda a ancestralidade nas relações entre natureza, arte e tecnologia; Hauke Dorsh, que explora as tecnologias sociais na disseminação da música africana; e Ive Rubini, que discute o conceito de tecnodiversidade e a importância de múltiplas perspectivas culturais e tecnológicas.
Um dos pontos centrais de discussão é a influência da inteligência artificial (IA) nas obras artísticas. Regina Silveira adota uma visão não apocalíptica, argumentando que a IA opera com repertórios e memórias já existentes, podendo auxiliar na expansão e facilitação, mas sem capacidade de invenção. Para a artista, a criação e o pensamento original, bem como as conexões inesperadas entre dados, são prerrogativas do cérebro humano, não uma inspiração que “cai do céu”. Ela, que atualmente trabalha em um projeto envolvendo a sombra de um objeto artístico, reforça sua postura sempre positiva em relação às tecnologias, sublinhando a necessidade de uma consciência crítica e engajada.
O 25º Encontro Internacional de Arte e Tecnologia, com suas instalações provocadoras e debates enriquecedores, consolida-se como um marco para a reflexão sobre o papel da arte na era digital. Ao unir o passado ancestral do bordado com as inovações tecnológicas e as discussões sobre o futuro da inteligência artificial, o evento no Sesi Lab demonstra a vitalidade da criatividade humana em explorar novas linguagens e desafiar os limites do imaginário, convidando o público a um mergulho profundo nas múltiplas faces da arte contemporânea.