PUBLICIDADE

Ave Sangria Recebe Anistia e Indenização Após Censura da Ditadura Militar

© Sarah Quines

A história da música brasileira registra um novo capítulo de reparação e reconhecimento. O grupo pernambucano Ave Sangria, expoente da psicodelia nacional, será indenizado pelo Estado brasileiro após ter seu álbum de estreia censurado pela ditadura militar em 1974. A decisão, aprovada pela Comissão de Anistia do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania na última quinta-feira (26), representa um marco na luta pela memória e verdade, quase cinco décadas após a interrupção abrupta de uma promissora carreira.

O Voo Interrompido: A Censura à Expressão

Em 1974, o cenário musical brasileiro foi palco de um ato autoritário que silenciou uma das vozes mais inovadoras de Pernambuco. A Ave Sangria, que emergia com uma proposta sonora e lírica ousada, teve seu disco de estreia integralmente censurado e recolhido das lojas. O motivo? A canção 'Seu Waldir', cuja letra abordava o amor entre dois homens, foi considerada pela ditadura como uma afronta à moral e aos bons costumes da época. A proibição não apenas retirou o álbum de circulação, mas também impôs um golpe severo à liberdade artística e de expressão.

As Consequências Drásticas e o Longo Hiato

O impacto da censura foi devastador para a jovem banda. O veto imediato ao disco de 1974 resultou no cancelamento de seu segundo trabalho, que já estava previsto por sua gravadora. Sem perspectiva e com o caminho artístico bloqueado, a Ave Sangria acabou se desfazendo, interrompendo uma trajetória que prometia revolucionar a música brasileira. O grupo só conseguiu retomar suas atividades e voltar aos palcos quase quarenta anos depois, já nos anos 2010, evidenciando a profundidade e a longevidade das feridas causadas pelo regime.

A Reparação e o Reconhecimento Simbólico

A aprovação da anistia pela Comissão de Anistia não se limita a um reconhecimento histórico, mas concretiza-se em reparação. Conforme detalhado pelo conselheiro Manoel Moraes, o processo reuniu provas irrefutáveis das perseguições sofridas pelos músicos do grupo. A indenização vitalícia fixada em R$ 2.000 mensais, acrescida dos valores retroativos desde a data do protocolo do pedido, busca mitigar os prejuízos. No entanto, Moraes ressalta que o valor financeiro é apenas uma parte da justiça, afirmando que 'a interrupção da carreira deles é um dano irreparável', e que o ocorrido é, sobretudo, 'o reconhecimento público e o pedido de desculpas pelos atos de exceção praticados contra esses integrantes e contra a cultura popular'.

A Voz da Resistência: Emoção e Legado dos Músicos

Para os integrantes da Ave Sangria, a notícia da anistia trouxe uma mistura de emoção e alívio. Marco Polo, vocalista e compositor, expressou que, embora o episódio parecesse soterrado, o trauma da proibição do disco e da consequente desintegração da banda ainda ressoava. Ele reconhece que 'não temos mais a juventude de volta, nem o dinheiro que ganharíamos se tivéssemos continuado com a carreira, mas mesmo assim é uma boa notícia saber que haverá uma remuneração econômica'. Almir de Oliveira, outro membro da formação original, enfatizou a importância da justiça feita e o reconhecimento dos danos. Para ele, 'a reparação financeira é importante. Porém, esse reconhecimento dos danos causados e a justiça que foi feita é o nosso maior legado neste momento', reforçando a necessidade imperativa de preservar a democracia para evitar que tais abusos voltem a ocorrer.

Um Novo Capítulo: Retomada e Homenagens Duradouras

Apesar dos anos de interrupção, a Ave Sangria demonstrou sua resiliência e a atemporalidade de sua arte. Em 2019, 45 anos após o lançamento do primeiro trabalho censurado, a banda lançou seu aguardado segundo disco, contando com a participação de Marco Polo e Almir de Oliveira na formação original. A retomada não se limitou à gravação de novas músicas, mas culminou também em um importante reconhecimento cultural. Em 2023, o grupo foi oficialmente declarado Patrimônio Cultural Imaterial do Recife, consolidando seu lugar na história da cultura pernambucana e brasileira.

A anistia concedida à Ave Sangria transcende a esfera jurídica e financeira; ela representa um poderoso ato de resgate da memória e da verdade histórica. Ao reconhecer os abusos e reparar os danos causados por um regime autoritário à liberdade de expressão e à cultura, o Estado brasileiro reafirma o valor inestimável da arte e a necessidade de proteger a democracia. A trajetória da Ave Sangria, marcada pela censura e pela resiliência, torna-se assim um símbolo eterno de resistência e um lembrete perene sobre os perigos da repressão.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

Leia mais

PUBLICIDADE