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Além dos Memes: Por que os EUA não têm seus ‘Tiriricas’ na Política?

G1

No Brasil, as eleições frequentemente se transformam em um palco para personagens que transcendem o político tradicional, desde figuras caricatas a candidatos que, com campanhas inusitadas, ganham notoriedade como memes nas redes sociais. Nomes como Tiririca, Cabo Daciolo, Enéas ou Padre Kelmon são emblemáticos dessa dinâmica, capazes de gerar mobilização e visibilidade muitas vezes inesperadas. No entanto, ao cruzar o Atlântico e observar o cenário político dos Estados Unidos, a ausência de concorrentes com perfis semelhantes é notável. Enquanto o país se prepara para as eleições de meio de mandato, conhecidas como 'midterms', em 3 de novembro, que definirão governadores e novos representantes para o Congresso Nacional e câmaras estaduais, o padrão de candidatos é marcadamente diferente. Essa distinção profunda levanta a questão: o que torna as eleições americanas tão avessas a esses tipos de candidaturas não convencionais?

O Sistema Eleitoral Americano: Um Filtro Rigoroso

A principal razão para a escassez de candidatos 'meme' nos Estados Unidos reside em seu complexo sistema eleitoral. Diferente do Brasil, onde o acesso à disputa pode ser menos restritivo para perfis excêntricos, os EUA operam sob uma estrutura dominada por dois grandes partidos – o Democrata e o Republicano. Ambos conduzem prévias rigorosas, ou primárias, para selecionar seus representantes. Este processo de seleção interna atua como um filtro, assegurando que os candidatos que chegam à eleição geral possuam um mínimo de preparo político, alinhamento com a plataforma partidária e capacidade de arrecadação de fundos. Consequentemente, figuras menos sérias ou meramente caricatas tendem a ser barradas nas etapas iniciais, antes mesmo de terem a chance de cativar o eleitorado mais amplo.

Voto Distrital e Propaganda: Dinâmicas Financeiras e Locais

Outro fator crucial que distingue o cenário eleitoral americano é o sistema de voto distrital, que exige uma conexão direta entre o candidato e a comunidade que ele busca representar. Cada candidato compete por votos apenas em seu distrito específico, sem a possibilidade de 'puxar' votos para um partido ou outros postulantes em diferentes localidades, como pode ocorrer no Brasil. Isso incentiva que os eleitores escolham indivíduos profundamente enraizados em suas comunidades, com históricos de serviço ou propostas que atendam às necessidades locais. Além disso, o modelo de propaganda eleitoral nos EUA impõe uma barreira financeira significativa. Ao contrário do Brasil, onde a propaganda gratuita na televisão confere visibilidade a qualquer candidato inscrito em um partido, nos Estados Unidos, cada segundo de mídia precisa ser pago. Essa exigência de custear espaços publicitários restringe o alcance de campanhas independentes ou de baixo orçamento, que são as que, muitas vezes, abraçariam perfis mais incomuns.

A Ascensão dos Influenciadores: Uma Nova Tendência Transnacional

Apesar da ausência de candidatos tradicionalmente 'meme', uma nova tendência tem ganhado força tanto no Brasil quanto nos EUA: a incursão de celebridades e influenciadores digitais na arena política. Com sua fama e vasta presença online, essas personalidades buscam traduzir seu alcance digital em votos. Nos Estados Unidos, esse fenômeno já se manifesta. No Texas, por exemplo, o youtuber Brandon Herrera, conhecido como 'The AK Guy' por seu conteúdo sobre armas e com mais de 4 milhões de inscritos, está disputando uma vaga na Câmara dos Representantes pelos Republicanos. Essa candidatura ilustra como a influência nas plataformas digitais se tornou uma ferramenta para construir uma base eleitoral e angariar apoio, mesmo em um sistema que favorece perfis mais convencionais.

Fama Digital Não Garante Sucesso Eleitoral

Embora a forte presença online e a base de seguidores tragam inegáveis benefícios, como maior alcance de mensagens e facilidade na arrecadação de fundos, a fama digital não é um passaporte garantido para o sucesso nas urnas americanas. Prova disso são os casos de figuras proeminentes que, apesar de sua notoriedade, não conseguiram avançar nas primárias. Adam Dunigan, um ex-agente da CIA que se tornou influenciador de geopolítica com milhares de seguidores, tentou uma vaga democrata no 8º distrito da Virgínia, mas ficou em terceiro lugar, com pouco mais de 9 mil votos, enquanto o atual representante foi reeleito. Da mesma forma, Luke Gulbranson, ator conhecido pelo reality show 'Summer House', perdeu as primárias para a Câmara dos Representantes em Minnesota, obtendo 17,1% dos votos contra uma servidora pública. Em um caso mais peculiar, Shelby Campbell, uma advogada de 32 anos do Michigan, buscou notoriedade para sua candidatura democrata ao Congresso por meio de vídeos de dança, incluindo 'twerking', nas redes sociais, visando atrair eleitores jovens, mas seu impacto eleitoral não foi suficiente para a vitória. Esses exemplos reforçam que, no cenário político dos EUA, a conexão com a comunidade e a substância das propostas ainda superam a mera popularidade digital.

Em síntese, a ausência de figuras políticas 'meme' nas eleições americanas é um reflexo direto de um sistema eleitoral que, através de suas primárias partidárias, do voto distrital e da ausência de propaganda eleitoral gratuita, impõe um crivo rigoroso. Enquanto a ascensão de influenciadores digitais representa uma nova frente na busca por representação política, a estrutura eleitoral dos EUA continua a priorizar candidatos com um perfil mais alinhado aos padrões políticos tradicionais, onde a popularidade online, por si só, não é o fator determinante para a vitória.

Fonte: https://g1.globo.com

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