A obra poética de Orides Fontela, conhecida por sua linguagem precisa e capacidade de transfigurar o cotidiano, ganha uma nova dimensão ao ser adaptada para o público infantil. Com o lançamento de "Pelos Olhos de Orides" (Editora Hedra), crianças e jovens são convidados a uma jornada de contemplação e curiosidade, características marcantes da produção da poeta. O livro, que integra literatura, arte e natureza, foi um dos destaques da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), onde Orides Fontela foi a autora homenageada, reforçando a relevância de sua voz para as novas gerações.
O Encanto da Palavra de Orides para a Infância
Orides Fontela, cuja vida foi interrompida em 1998, aos 58 anos, logo após o lançamento de "Teia", construiu uma poesia que parte de elementos simples e universais – um pássaro, uma nuvem, uma flor – para mergulhar em reflexões profundas sobre o mundo, o tempo e a espera. Sua habilidade em transformar uma nuvem na “flor do céu” ilustra a delicadeza e a acuidade com que abordava a linguagem. "Pelos Olhos de Orides" oferece, assim, um portal para que as crianças experimentem essa intensidade e mistério, incentivando uma percepção aguçada da realidade e de suas próprias emoções, um convite a ver o mundo por uma perspectiva renovada.
A Poesia como Alimento para a Sensibilidade Infantil
A importância de introduzir a literatura na infância e, em particular, a poesia, foi um ponto central na discussão sobre a obra. O poeta e educador André Gravatá, autor de títulos infantis como "Converseiro da Natureza", enfatiza que a poesia nutre a sensibilidade das crianças, permitindo que continuem brincando e se espantando com o mundo. Ele relata, por exemplo, o caso de uma criança que, ao escovar os dentes, declarou seu amor à água, exemplificando como a poesia pode ser vivida e sentida no corpo, estimulando a imaginação e a capacidade de se conectar com o inanimado. Gravatá salienta que as crianças compartilham com os poetas a paixão pelo brincar com as palavras, reconhecendo a essência do ofício poético.
Ilustrações que Desafiam o Olhar e Convidam à Interpretação
Um dos aspectos mais inovadores de "Pelos Olhos de Orides" reside em seu projeto gráfico e de ilustração. O organizador da obra, Augusto Massi, destacou durante o evento da Flip que as imagens, assinadas por Cynthia Cruttenden, rompem com o óbvio, explorando formas, cores fortes e movimentos que fogem da representação literal. Essa escolha deliberada cria contrastes e espaços para que a criança faça perguntas e teça suas próprias considerações, assim como Orides tecia sobre elementos como o pássaro João de Barros, que para ela era o “pássaro operário”. Massi ressaltou que as figuras de Cruttenden não apenas dão movimento ao livro, mas possuem uma força que as faz “querer sair” das páginas, convidando a uma experiência visual mais livre e imaginativa.
A ilustradora Cynthia Cruttenden complementa que a característica lúdica de suas imagens, que trazem liberdade e alegria, é essencial para o público infantil. Ela explica que as figuras não são inteiramente claras, muitas vezes estão “meio escondidas”, estimulando o olhar investigativo e a livre interpretação. Essa dualidade presente nas formas e cores serve como um catalisador para a curiosidade, fazendo com que a criança se sinta mais engajada na construção do significado da imagem.
Orides Fontela: Uma Poeta Ecológica e Contemplativa
Augusto Massi também estabeleceu um paralelo entre a poesia de Orides e uma postura de investigação e liberdade de interpretação que se alinha naturalmente com a infância. Ele mencionou a relação da poeta com a natureza, lembrando que Orides costumava pescar com o pai. A pesca, uma atividade que exige silêncio, proporcionava a Orides um contato profundo com o ambiente, permitindo-lhe escutar o canto dos pássaros e o vento nas folhas. Essa vivência se reflete em sua obra, conferindo-lhe um caráter intrinsecamente ecológico, embora sem um tom de denúncia explícita. O livro, portanto, ensina a observar, a tecer considerações sobre o mundo e a reconhecer a beleza nas coisas mais simples, promovendo uma conexão com o meio ambiente de forma poética e sutil.
O Legado da Flip e a Paixão pela Leitura na Infância
A celebração da obra de Orides Fontela na Flip, um dos mais prestigiados eventos literários do Brasil, reforça o compromisso com a formação de novos leitores. A própria Flip, através de iniciativas como o Circuito Cultural, demonstrou um esforço em democratizar o acesso à literatura. Cerca de 270 crianças e adolescentes das comunidades locais de Paraty participaram do festival, vivenciando atividades na Flipinha e na Casa da Cultura, além de explorar as ruas históricas da cidade, repletas de manifestações culturais. "Pelos Olhos de Orides" se insere nesse contexto de fomentar a paixão pela leitura e pela poesia desde cedo, oferecendo às novas gerações uma oportunidade de se conectar com a riqueza do pensamento poético brasileiro e de desenvolver uma sensibilidade única para o mundo.