Desde sua ascensão ao poder em dezembro de 2023, o presidente argentino Javier Milei tem pautado seu discurso na premissa de que uma 'ofensiva anti-Argentina' estaria em curso, visando frear o desenvolvimento do país. O slogan de sua campanha, 'Vamos a hacer grande a la Argentina otra vez', ecoa um passado de proeminência econômica na região, contrastando com o cenário atual e alimentando uma retórica de 'nós contra eles'. Contudo, essa narrativa é vista por muitos especialistas como uma ficção ou uma estratégia política conveniente, levantando a questão: existe realmente uma 'onda anti-Argentina' no cenário global ou seria essa uma ferramenta retórica?
A Estratégia da Narrativa 'Nós Contra Eles'
A tese de uma conspiração externa que tenta conter a Argentina é um pilar central do discurso do governo Milei, que busca mobilizar o apoio popular ao atribuir dificuldades internas a inimigos externos. Para economistas e sociólogos, porém, a ideia de uma onda global orquestrada contra a Argentina carece de fundamento. Fabio Giambiagi, economista e pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), classifica a noção como 'simplesmente ridícula'.
Complementando essa visão, o sociólogo Rogério Baptistini, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, sugere que as redes digitais, na verdade, amplificam uma 'narrativa construída por setores políticos que dela extraem benefícios'. Para Baptistini, essa é uma estratégia clássica da extrema-direita, exemplificada por figuras como Donald Trump e Jair Bolsonaro: desviar a atenção dos resultados sociais do governo – que frequentemente afetam negativamente a classe média e os trabalhadores – criando inimigos externos para capitalizar o ressentimento e a polarização.
Futebol e a Repercussão Pós-Copa do Mundo
Um ponto frequentemente citado por defensores da tese da 'onda anti-Argentina' é a reação global após a Copa do Mundo, onde a seleção albiceleste conquistou o vice-campeonato. Embora não caracterize uma 'onda anti-Argentina' generalizada, especialistas reconhecem que houve uma reação significativa. Fabio Giambiagi aponta para as 'atitudes antiesportivas de um conjunto de jogadores argentinos imediatamente após a partida final' contra a Espanha, como o gesto de dar as costas à celebração dos adversários, como um fator de desgaste da imagem da equipe.
O economista ressalta que a Argentina vinha construindo uma enorme simpatia ao longo do torneio, impulsionada por vitórias memoráveis, viradas épicas e a despedida de Lionel Messi. Esse 'soft-power', termo popularizado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para descrever a influência cultural de um país, foi, na sua visão, 'jogado no lixo' em poucos minutos após o apito final. A partir desse incidente, proliferaram teorias conspiratórias, desde um complô da FIFA para favorecer Messi até a ideia de que a Argentina teria 'entregue' o jogo, teses que Giambiagi categoriza como 'estupidez absoluta', lamentando como a internet amplifica vozes desinformadas.
Rogério Baptistini, por sua vez, observa que a Copa do Mundo de fato expôs a seleção argentina a críticas intensas, mas as decisões controversas de arbitragem, embora presentes, não foram exclusivas ao time. Ele argumenta que o discurso contra a Argentina foi também alimentado por seu 'estilo de jogo' – mais prático, baseado na 'catimba' e na irritação do adversário, e menos estético. Esse 'antijogo' confronta os puristas do futebol, gerando um 'preconceito contra o estilo emocional de futebol dos argentinos' que, mesmo com craques como Messi e Maradona, desafiam a ordem estabelecida do futebol europeu ao vencer com paixão e uma 'desordem criativa'.
Distinguindo Crítica de Conspiração
Apesar das polêmicas no esporte e das discussões acaloradas nas redes sociais, o consenso entre os analistas é que esses eventos não configuram uma 'onda anti-Argentina' de proporções globais. As críticas, muitas vezes, são reações a comportamentos específicos ou a um estilo que desafia convenções, e não a um ataque sistemático ao país ou seu povo. A Argentina, como qualquer outra nação, está sujeita a escrutínio e debate.
Em vez de uma conspiração internacional, o que se observa é uma amplificação de narrativas que servem a propósitos políticos internos. O discurso de uma 'onda anti-Argentina' atua, assim, como um mecanismo para solidificar o apoio doméstico ao governo Milei, desviando o foco das complexas questões econômicas e sociais que o país enfrenta. A distinção entre uma legítima reação a eventos e a construção de uma conspiração é crucial para compreender a dinâmica atual da política argentina e sua repercussão global.
Fonte: https://g1.globo.com