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A Faísca de Niterói: Como o Protesto de Estudantes da UFF Acendeu a Mobilização Pela Virada de Lula

© Tomaz Silva/Agência Brasil

Em 5 de outubro, apenas um dia após o primeiro turno das eleições presidenciais de 2022, um cartaz afixado por estudantes da Universidade Federal Fluminense (UFF) em Niterói clamava: “O abalo e o espanto precisam se transformar em movimento”. Essa mensagem não era apenas um chamado à ação, mas o estopim de uma mobilização que se tornaria um marco na campanha pela reeleição do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva, culminando em sua vitória nas urnas. O ato estudantil, nascido da angústia e da percepção de ameaça à democracia e à educação, transformou-se rapidamente em um vibrante protesto de rua, unindo centenas de vozes em defesa de valores fundamentais.

A Angústia Pós-Primeiro Turno e a Gênese do Protesto

A semente do movimento foi plantada na noite de domingo, 4 de outubro, quando os resultados do primeiro turno das eleições revelaram um cenário preocupante para muitos universitários. Na disputa pelo governo do Rio de Janeiro, o então senador Flávio Bolsonaro (PL) havia conquistado 47% dos votos válidos, superando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que obteve 45%. Este placar inesperado gerou apreensão imediata, especialmente entre os estudantes do curso de direito, que enxergavam na proposta do candidato do PL uma ameaça direta à estrutura e autonomia do ensino superior público. A iniciativa de organizar um protesto partiu do Centro Acadêmico Evaristo da Veiga e da Associação Atlética Acadêmica Camillo Guerreiro, ambos vinculados ao Direito da UFF, com o objetivo de canalizar a insatisfação e a necessidade de resposta imediata.

Educação Sob Ataque: O Alerta dos Universitários

A principal preocupação dos estudantes residia nas propostas educacionais do candidato Flávio Bolsonaro, que incluíam a transferência das universidades do Ministério da Educação (MEC) para o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), uma pasta com significativamente menos verbas. Para Valentina Cruz, diretora do Centro Acadêmico de Direito, essa medida seria um golpe fatal. Ela avaliou que a vitória do candidato representaria cortes indiscriminados em todas as áreas universitárias, desde a infraestrutura básica até os programas de auxílio permanência, essenciais para a manutenção de estudantes de baixa renda. Essa perspectiva ecoava a experiência recente vivida durante o governo de Jair Bolsonaro (2019-2022), quando cortes orçamentários e ataques à autonomia universitária se tornaram rotina, com a UFF sendo uma das primeiras a sofrer contingenciamentos sob a justificativa de combater a “balbúrdia”.

Simão Gabriel Adorno, membro da atlética de direito, reforçou que a memória desses ataques recentes foi um fator crucial para a rápida reação. Ele relembrou as declarações do então ministro da Educação, Abraham Weintraub, e do ex-presidente, que chegou a rotular universitários como “idiotas úteis” e “massa de manobra”. Os cortes de até 30% nas verbas, com impactos diretos no funcionamento das instituições e nas bolsas de pesquisa, haviam deixado cicatrizes profundas, afetando especialmente estudantes negros e periféricos. Essa vivência consolidou a percepção de que a educação pública estava em risco iminente, e a imobilidade não era uma opção.

A Defesa da Democracia e da Memória Histórica

Para os estudantes de direito, as preocupações iam além do orçamento. Eles rechaçavam a retórica de anistia defendida por apoiadores de Jair Bolsonaro, especialmente diante das promessas de Flávio Bolsonaro de que seu pai seria “libertado” e subiria a rampa com ele em sua posse, caso fosse eleito. Essa postura era vista como um desrespeito à Constituição Federal e um perigoso aceno à defesa da Ditadura político-empresarial-militar, período que os estudantes de direito conheciam profundamente por seus impactos nos direitos civis e na liberdade. João Paulo Armando, outro diretor do centro acadêmico, enfatizou a indignação com a postura “contra direitos civis e a Constituição”, lembrando o caso de Fernando Santa Cruz, ex-aluno da instituição e militante político desaparecido durante a ditadura em 1974. A bandeira do “Direito Antifascista”, confeccionada em 2018 antes da primeira eleição de Jair Bolsonaro, foi hasteada no ato, simbolizando a resistência histórica e a vigilância contra ameaças autoritárias.

Das Salas de Aula às Ruas: A Marcha Pela Virada

O que começou como uma articulação interna na noite de domingo rapidamente ganhou proporções maiores. A convocação do ato, que trazia uma imagem do presidente Lula com jovens, ressoou para além do curso de direito, atraindo a adesão de estudantes de outras faculdades da UFF. Inicialmente concebido para ser uma manifestação de alunos e professores, possivelmente com a participação de representantes de entidades como a OAB, o protesto se transformou em uma grandiosa passeata que reuniu centenas de pessoas. Em uma chuvosa noite de segunda-feira, a multidão partiu da Faculdade de Direito, no bairro do Ingá, percorreu as ruas de Niterói, passando pela reitoria da UFF em Icaraí, e retornou ao ponto de partida. Ao longo do trajeto, moradores desceram dos prédios e transeuntes se uniram à caminhada, demonstrando que a preocupação com o futuro do país e da educação pública era um sentimento compartilhado pela comunidade.

O Impacto de um Gesto Coletivo

O protesto dos estudantes da UFF em Niterói, apesar de ter nascido de uma preocupação local e imediata com os resultados do primeiro turno, transcendeu suas origens para se tornar um símbolo de resistência e esperança. Ao canalizar a angústia em ação coletiva, os jovens universitários deram o pontapé inicial em uma mobilização que se alastraria, inspirando outros movimentos e reforçando a campanha pela virada de Lula no segundo turno. O ato chuvoso em Niterói demonstrou o poder do engajamento estudantil e da cidadania ativa na defesa da educação pública e dos valores democráticos, reafirmando o papel fundamental das universidades como epicentros de pensamento crítico e articulação política em momentos decisivos da história do país.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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