Com mais de dois séculos desde sua formulação, a Doutrina Monroe ressurge como pilar central da política externa norte-americana, especialmente sob a gestão de Donald Trump. Recentemente, um vídeo oficial divulgado pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos reacendeu o debate sobre essa antiga orientação geopolítica, afirmando que ela 'encontrou seu mais recente defensor em Donald Trump' e que 'moldou a política externa dos EUA através de diferentes mandatos e em áreas geopolíticas fundamentalmente distintas'. A declaração, que inicialmente advertia potências europeias, evoluiu para uma estrutura de domínio regional que, segundo a narrativa atual, permanece a pedra angular da conduta americana no hemisfério.
O Resgate de um Legado: A 'Doutrina Donroe'
A administração Trump não apenas validou, mas ativamente promoveu a Doutrina Monroe como um guia contemporâneo para suas ações nas Américas. O vídeo do Departamento de Estado exemplifica essa aplicação moderna ao citar a captura do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro como um caso de sucesso da diretriz. Narrado pelo embaixador dos EUA no Panamá, Kevin Marino Cabrera, o material reforça a ideia de que a doutrina transcendeu sua origem defensiva para consolidar um domínio estratégico. A fusão do nome de Monroe com o de Trump deu origem ao apelido 'Doutrina Donroe', refletindo a apropriação pessoal do presidente republicano por este princípio histórico.
As Origens da Doutrina Monroe: Recado aos Europeus
Formalizada em 1823 pelo então presidente James Monroe, durante seu discurso anual no Capitólio, a doutrina foi uma resposta estratégica a um cenário geopolítico efervescente. Em um continente marcado por recentes independências de antigas colônias e por persistentes disputas imperiais europeias, Monroe estabeleceu que qualquer tentativa de potências europeias de estender seus sistemas políticos para o hemisfério ocidental seria vista como uma ameaça à paz e segurança dos Estados Unidos. Em contrapartida, os EUA se comprometiam a não interferir nos conflitos internos da Europa, demarcando assim zonas de influência e posicionando-se como uma espécie de 'tutor' das nações americanas, que se tornavam prioritárias para seus interesses.
Reinterpretações e a Política do 'Big Stick'
Ao longo das décadas, a doutrina original de Monroe não permaneceu estática; ela foi constantemente reinterpretada e expandida por sucessivas administrações, justificando diversas intervenções diretas ou indiretas, especialmente no Caribe e na América Central. Essas adições e esclarecimentos, conhecidos como 'corolários', moldaram a política externa americana. O mais notório deles foi o Corolário Roosevelt, de 1904, estabelecido pelo presidente Theodore Roosevelt. Essa interpretação concedia aos Estados Unidos o direito de intervir nos assuntos internos de nações latino-americanas que se mostrassem incapazes de cumprir suas obrigações internacionais, consolidando a postura do 'big stick' ou 'grande porrete', um símbolo da ameaça de intervenção para garantir os interesses dos EUA na região.
A Doutrina Monroe na Estratégia de Segurança Nacional de Trump
A relevância da Doutrina Monroe para a gestão Trump foi solidificada com sua inclusão explícita na Estratégia de Segurança Nacional (National Security Strategy) da Casa Branca, divulgada no final do ano. Antes mesmo do documento, o próprio presidente celebrou o aniversário da doutrina, qualificando-a como 'fundamental' na história do país e reiterando o compromisso de sua administração com a proteção do hemisfério ocidental. Para a atual gestão, países da América Latina são vistos como a origem de questões que afetam diretamente os Estados Unidos, como a imigração e o tráfico de drogas. Mais do que isso, a doutrina foi reeditada para um novo desafio geopolítico: conter a crescente influência da China na região, espelhando a intenção original de barrar potências europeias. Em uma entrevista, o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, sublinhou essa guinada, afirmando a necessidade de os Estados Unidos 'recuperarem a influência' em seu 'quintal', supostamente 'perdida' para a potência asiática.
Em suma, a Doutrina Monroe, um pilar da política externa dos EUA do século XIX, demonstrou uma notável capacidade de adaptação e ressignificação. Sob a presidência de Donald Trump, ela transcendeu seu papel histórico de alerta contra potências europeias para se tornar uma ferramenta ativa de projeção de poder, redefinindo as relações com a América Latina e, crucialmente, reposicionando-se para enfrentar novos desafios geopolíticos e econômicos na região, notadamente a ascensão chinesa. Sua permanência como uma 'pedra angular' da conduta americana no hemisfério atesta sua duradoura, embora controversa, influência.
Fonte: https://g1.globo.com